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O novo iluminismo – Steven Pinker

No dia 23 de março de 2019, o Instituto Braudel promoveu mais um encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 8 - Riqueza e 9 - Desigualdade.

23/03/2019

No dia 23 de março de 2019, o Instituto Braudel promoveu mais um encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 8 - Riqueza e 9 - Desigualdade.

O salto na geração de riqueza

Pinker começa o capítulo citando Peter Bauer: “A pobreza não tem causas. A riqueza tem. ” Por esse ponto de vista, a pobreza seria associada à entropia, um estado natural de desordem e miséria, que exige muito esforço para que seja transformada em riqueza.

Um dos fatores que explica como a humanidade conseguiu sair de um constante estado de pobreza e miséria por muitos séculos para um estado de grande riqueza e bem-estar generalizado é a urbanização. Infelizmente, Pinker não dedica um capítulo do livro para explicar como se deu esse processo, nem cita sua importância em relação à saída da pobreza.  A urbanização é o que gera riqueza e inovação. Basta lembrar do caso do Brasil, que viveu um grande êxodo de famílias da zona rural, principalmente da região nordeste, para as grandes cidades brasileiras, em busca de empregos e educação para seus filhos. Isso resultou em mais geração de riqueza nas grandes metrópoles e maior qualidade de vida para essas famílias.

No livro, há um trecho citando Braudel sobre como era a vida da Gênova do século XIX, onde os pobres viviam em situação de completa miséria. Até o século XIX, ainda era comum o trabalho forçado nessa região. Presos e indulgentes eram forçados a trabalhar como tripulantes nas embarcações de guerra ou de comércio.

O gráfico da página 109, que mostra a evolução do Produto Mundial Bruto, mostra uma linha de contínua pobreza generalizada na humanidade e, a partir dos anos 1800, dá um grande salto.

O que favoreceu esse grande salto de séculos de miséria para a produção de riqueza? Essa linha que sobe a partir do século XIX continuará subindo de forma contínua, vai estagnar ou começará a declinar? É fato que dificilmente essa linha continuará a subir por muito tempo, pois tal salto do PIB mundial não continua aumentando infinitamente.

Crescimento populacional e geração de riqueza

Para uma melhor interpretação desse gráfico, seria importante compará-lo ao gráfico do crescimento populacional ao longo dos séculos [1] .

O boom populacional teve impacto direto no boom da produção de riquezas, já que mais gente no mundo significa mais gente trabalhando e, consequentemente, mais riqueza sendo gerada. Junto ao salto demográfico e de riqueza, há também um período de intensa exploração de recursos naturais como jamais visto antes na história da humanidade. Este é mais um motivo para crer que a linha de riqueza vai decair, uma vez que a produção de riquezas está diretamente ligada à exploração de recursos naturais e estes são finitos.

Um outro fator que pode ter contribuído em muito para a linha de produção de riqueza subir tanto em um curto espaço de tempo é a invenção da imprensa por Gutemberg. Isso permitiu a disseminação do conhecimento entre diferentes regiões.

O ponto de virada da curva foi também a invenção da máquina a vapor, além da construção de ferrovias, a eletricidade e a prevenção de epidemias. Aliado a tudo isso ainda temos a criação das instituições e a confiança e a cooperação entre os seres humanos, o que permitiu maior organização social e produção de riqueza.

A zona rural dos EUA e do Brasil

Nesse ponto do debate, demos uma pausa na leitura do livro para ler um artigo de Paul Krugman publicado no New York Times, intitulado “Getting Real About Rural America” [2] (Caindo na real sobre a América rural, em uma tradução livre). O artigo se relaciona muito com o capítulo na medida em que mostra que a produção de riqueza dos Estados Unidos hoje se encontra concentrada nos grandes centros urbanos. Assim, muitos homens rurais do país, que viviam em regiões prósperas e geradoras de riqueza e empregos, hoje se sentem abandonados, com a debandada de muitas empresas e uma população que depende de subsídios governamentais para sobreviver. São regiões que contam com altos índices de desemprego, uso de drogas e suicídio.

Embora a questão das drogas esteja presente tanto na zona rural dos EUA quanto em cidades do interior do Norte e Nordeste, há uma diferença entre as zonas rurais dos dois países. De forma geral, a zona rural dos EUA foi ocupada por famílias que trabalhavam a terra em pequenos lotes. No Brasil, principalmente na região do centro-oeste, as propriedades são muito grandes, por conta de famílias e empresas que se associam. Além disso, esta foi uma região que recebeu muitos migrantes, sobretudo do sul do país. É uma região que não nasceu rica e que teve que construir suas riquezas sem contar com privilégios de antepassados.

Desigualdade

No capítulo dedicado a explicar as causas e possíveis soluções da desigualdade, discutimos se as condições de pobreza e riqueza são uma fatalidade ou se são passíveis de mudança. Foram lembrados exemplos de países como a Suécia e a Dinamarca, que até o século XIX eram muito pobres, enquanto a Holanda era o país mais rico da Europa, dominando as principais rotas do comércio mundial. Atualmente, tanto Suécia quanto Dinamarca figuram entre os países mais ricos do mundo.

Países grandes como Rússia, Estados Unidos e África do Sul possuem histórias muito diferentes entre si e suas particularidades, não conseguindo vencer ainda o desafio da desigualdade social.

Uma consequência evidente da desigualdade social, além da geração de pobreza, é a concentração de renda e, consequentemente, a concentração política. Países com altos índices de desigualdade social entram em um ciclo vicioso de que apenas os ricos conseguem alçar posições de poder na política, perpetuando políticas e ações que os favoreçam em detrimento de um esforço para superar a desigualdade do país.

O Jornal Valor publicou um artigo no qual mostra que 22% dos domicílios brasileiros não têm ninguém trabalhando. [3] Os dados apontados no artigo possuem relação com os problemas apontados por Krugman no artigo do NYT. A questão é: há solução para esse tipo de problema? Como tirar tantas pessoas da dependência de recursos governamentais para a geração de riqueza?

Estamos presenciando diversos países do mundo, como China e Estados Unidos, com cidades fantasmas, nas quais as poucas empresas que mantinham as atividades econômicas de determinado local foram embora e a população não teve outra alternativa a não ser ir embora também.

Aqui no Brasil temos o problema de populações que são mantidas artificialmente em cidades sem atividade econômica relevante, gerando mais dependência de programas sociais. Uma saída seria uma política de estímulo econômico nesses locais ou escoar de forma organizada essa população para centros econômicos, onde ela geraria renda.

Gastos sociais e transferência de renda

Pinker cita mais à frente de como uma economia de mercado pode e deve andar aliada a gastos sociais, pois sempre haverá uma parcela da população que não consegue contribuir com a geração de riquezas (crianças, idosos, doentes etc) e que inevitavelmente precisa do auxílio do Estado.

O problema é que, geralmente, gasto social é confundido e simplificado a programas de transferência de renda. Um gasto social eficaz deve estar sempre atrelado a investimentos em infraestrutura e políticas públicas de saúde, educação, segurança etc. Caso contrário, estará fadado a gerar um grande número de pessoas que sobrevive exclusivamente de transferência de renda, sem quebrar, de fato, o ciclo de pobreza.

No Brasil, estamos longe de termos um gasto social bem estruturado. Além disso, os impostos são grandes geradores e perpetuadores de desigualdade, uma vez que o peso dos tributos recai principalmente sobre o consumo, enquanto imposto de renda e imposto sobre herança e dividendos, por exemplo, continuam favorecendo os mais abastados. Assim, faz-se necessária uma reforma que torne nosso sistema mais justo, tributando proporcionalmente mais aqueles que possuem maior renda.

O Brasil conta com muitos privilégios para políticos e para parte do funcionalismo público, com altos salários, inúmeros benefícios e uma aposentadoria precoce e que custa caro aos cofres públicos. É urgente deslocar os recursos utilizados para bancar tantos privilégios para programas de infraestrutura e investimento público.

Oportunidades e igualdade social

Uma outra questão ligada à desigualdade é como ela mina as chances dos mais pobres terem acesso a uma educação de qualidade. Recentemente, em artigo veiculado no New York Times, foi revelado um escândalo de pessoas oriundas de famílias muito ricas que pagavam para estudarem nas melhores universidades americanas. [4] Essas pessoas extremamente ricas já saírem na dianteira desde o nascimento.

 Por terem acesso às melhores oportunidades educacionais, tais pessoas ainda têm dinheiro e poder para subornar funcionários e entrar em grandes universidades.

 

[1] Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Crescimento_populacional

[2] Veja o artigo no original em: https://www.nytimes.com/2019/03/18/opinion/rural-america-economic-decline.html

[3] Veja mais em: https://www.valor.com.br/brasil/6172525/pais-tem-16-milhoes-de-domicilios-sem-renda-do-trabalho-indica-ipea

[4] Veja mais em: https://www.nytimes.com/2019/03/12/opinion/college-bribery-admissions.html

 

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 06 de abril de 2019
Horário: 10h
Leitura e reflexão: Capítulos: 12 - Segurança e 13 - Terrorismo
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

Endereço e
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