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O novo iluminismo – Steven Pinker

No dia 23 de fevereiro de 2019, o Instituto Braudel promoveu o segundo encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 3 e 4.

23/02/2019

Resumo do debate realizado por Aline Vieira, supervisora de projetos no Instituto Fernand Braudel.

No dia 23 de fevereiro de 2019, o Instituto Braudel promoveu o segundo encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 3 e 4.

No início do encontro, foi destacado, mais uma vez, o real significado de enlightenment , termo original do inglês que foi traduzido para o português como “iluminismo”. A tradução acaba dando uma conotação religiosa ao termo, quando, na verdade, enlightenment é, antes de tudo, esclarecimento das ideias, das relações entre homem e universo usando a razão.

Contrailuminismos: religião e nacionalismo
Pinker inicia o capítulo 3 afirmando que movimentos contra o iluminismo sempre existiram e que muitos deles foram encabeçados por religiões que não aceitavam o questionamento de seus dogmas. Ele cita o exemplo de Galileu Galilei, físico, matemático, astrônomo e filósofo florentino do Renascimento. Galileu foi o primeiro a fazer uso científico do telescópio. Descobriu que a Via Láctea é composta de miríades de estrelas, os satélites de Júpiter, as montanhas e crateras da Lua. Todas essas descobertas foram comunicadas ao mundo no livro Sidereus Nuncius ("O Mensageiro das Estrelas"). A observação dos satélites de Júpiter levou-o a defender o sistema heliocêntrico de Copérnico. Em 1616, a Inquisição pronunciou-se sobre a Teoria Heliocêntrica declarando que a afirmação de que o Sol era o centro do Universo era herética e que a de que a terra se move estava "teologicamente" errada.

Galileu viveu em uma época em que muitos intelectuais migraram da igreja, até então a instituição tida como detentora do conhecimento, para pensarem por conta própria, e foram perseguidos por essa decisão. Galileu é um dos expoentes dessa época, mostrando que a procura pela verdade fora dos costumes exige coragem.

Além da religião, outro fator apontado por Pinker como contrário ao iluminismo é o nacionalismo. Nesse caso, o nacionalismo pode apresentar uma faceta negativa, no sentido de tornar populações egoístas e sem o sentimento de pertencer a um todo. Porém, há uma faceta positiva: quando não exacerbado, o sentimento de pertencer a um grupo por vínculos raciais, linguísticos e históricos pode ser um campo fértil para a cooperação humana.

Mais à frente do capítulo, é citado o termo “jogo de soma zero”, usado por Pinker quando ele afirma que, há não muito tempo atrás, representantes do espetro da esquerda política viam que direitos individuais e igualdade de condições e oportunidades seriam competidores em um jogo de soma zero. No jogo de soma zero, prevalece a disputa, no qual para um lado ganhar, o outro precisa, necessariamente, perder. O contrário do jogo de soma zero é o jogo de soma positiva, no qual se um lado ganha, não significa que o outro tenha que perder, mas, sim, que é possível produzir mais e dividir, com ambos os lados ganhando. Um exemplo prático é de que, se um grupo da sociedade conquista mais direitos, isso não quer dizer que outros grupos terão menos direitos. É o caso de políticas afirmativas de igualdade de raça e de gênero, por exemplo.

Esquerda e direita
Em determinado ponto, Pinker afirma que “As próprias ideologias políticas de esquerda e de direita tornaram-se religiões seculares que proporcionam às pessoas uma comunidade de irmãos com uma afinidade de ideias, um catecismo de crenças, uma demonologia populosa e uma confiança beatífica na virtude de sua causa”. Nesse ponto, é preciso, antes de tudo, compreender o que é direita e esquerda no campo político. Alguns pensam que o que diferencia os dois espectros políticos é o conservadorismo atribuído à direita e o liberalismo em relação aos costumes atribuído à esquerda. Porém, é importante salientar que a diferença está basicamente na defesa do quanto o Estado deve ou não interferir na vida em sociedade e na economia.

O problema apontado por Pinker é quando esquerda e direita passam a ser tratadas como religiões por seus adeptos, pois uma crença cega não abre espaço para o diálogo, a escuta, a racionalidade ou a mudança de opiniões. Nesse contexto, é de se questionar qual é o papel do centro que, em teoria, deveria juntar os melhores aspectos da esquerda e da direita e equilibrar os interesses, pendulando de um lado ao outro conforme a situação. O centro da política brasileira estaria cumprindo esse papel?

Se para nosso grupo é colocado que direita e esquerda possuem suas diferenças mas podem cooperar, é de se questionar o que chega sobre o que é ser de direita e o que é ser de esquerda para a grande massa, cuja maioria não tem acesso à educação formal de qualidade. Por serem conceitos muito fluidos, esquerda e direita podem adquirir conotações mais extremistas na população em geral, o que gera esse sentimento de defender um lado político como uma verdadeira religião.

Assim como fanáticos religiosos que só aceitam ler seus próprios livros sagrados, menosprezando os conhecimentos de outros, há, também, no fanatismo político, uma tendência daqueles que se identificam com direita ou esquerda lerem apenas livros, revistas e jornais que defendam e explicitem sua ideologia, recusando-se a entender o pensamento do outro.

Ainda que seja normal do ser humano querer se sentir parte de um grupo e que nosso cérebro organize as coisas em categorias, é preciso repensar os dogmas atribuídos à direita e à esquerda e sair do jogo de soma zero. O problema não está em se identificar com um espectro ou outro, mas, sim, na impermeabilidade e na recusa ao diálogo. O grupo do colóquio é um exemplo positivo, na medida em que reunimos pessoas que pensam diferente, mas que trabalham a reflexão e querem aprender juntos.

Colocar o foco de discussão entre direita e esquerda, como afirma Pinker, tira o foco de nosso verdadeiro inimigo: a entropia e a ignorância. Lembrando que a entropia é o fato de existirem mais forças no universo capazes de desorganização e nosso trabalho, usando a ciência e a razão, é centrar esforços e empenho para a organização. Da mesma forma que desorganizar exige muito menos energia do que organizar, acreditar cegamente em um dogma é muito menos dispendioso do que estudar e se aprofundar em determinado assunto. Assim, buscar a verdade deveria ser o objetivo comum entre direita e esquerda.

Evolução e o futuro
No início do capítulo 4, “Progressofobia”, há uma citação de Barack Obama que diz: “ Se você tivesse que escolher um momento na história para nascer e não soubesse de antemão quem você seria – não soubesse se iria nascer em uma família rica ou em uma família pobre, em que país nasceria, se seria homem ou mulher -, se tivesse que escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer, você escolheria agora”. O grupo foi questionado sobre se concordava com tal afirmação; a maioria respondeu que sim, pois hoje, de fato, a desigualdade entre pobres e ricos é menor e, especialmente para uma mulher, nascer no século XXI pode ser mais fácil do que em séculos passados. Porém, há algumas especificidades: um venezuelano provavelmente escolheria ter nascido em outra época que não agora e o mesmo vale para os povos indígenas do Brasil.

Pinker inicia o capítulo mostrando como alguns intelectuais tendem ao pessimismo, e julgam aqueles que acreditam na evolução e em um mundo melhor como ingênuos. É citado o exemplo clássico de Pangloss personagem do livro “Cândido”, de Voltaire, de l759. Ele acreditava que o mundo era perfeito e que o mal é apenas o caminho para um bem maior. Porém, de fato, Pangloss era um ingênuo, fora da realidade. O que Pinker defende ao longo do livro é que, se olharmos os dados ao longo da história e continuarmos empenhados, é possível viver em um mundo ainda melhor do que o que temos hoje.

A escola do pessimismo tem raízes antigas que reverberam até hoje. Um dos filósofos icônicos da escola pessimista foi Arthur Schopenhauer, que ficou conhecido com o pai do pessimismo. Pinker ainda afirma que o jornalismo, por meio do noticiário, também é responsável pelo sentimento de pessimismo generalizado na população, uma vez que o desastre e as tragédias chamam a atenção do público e é o que faz jornais venderem.

Pode-se pensar que, para muitos pensadores da escola pessimista, o apocalipse seria o próprio progresso da humanidade. A invenção e disseminação de meios de comunicação como a televisão, por exemplo, foi alardeada em sua época como algo que destruiria as relações humanas. O fim de uma era e de seus costumes pode ser interpretado por pessimistas como o fim do mundo, mas a história da humanidade vem provando continuamente que, no geral, a vida de todos melhorou ao longo dos séculos.

É interessante, nesse ponto, lembrarmos de uma obra clássica da literatura que apresentou um futuro pessimista. Estamos falando do livro “1984”, de George Orwell. Publicado em 1949, o livro é ambientado em uma província do superestado da Oceania, em um mundo de guerra perpétua, vigilância governamental onipresente e manipulação pública e histórica. O superestado está sob o controle da elite privilegiada do Partido Interno, um partido e um governo que persegue o individualismo e a liberdade de expressão.

O futuro descrito por Orwell não aconteceu. O mundo não caiu no totalitarismo e a democracia e a liberdade avançaram em boa parte do mundo desde a década de 1980. A previsão de um futuro negativo e nebuloso não se concretizou; pelo contrário, hoje vivemos muito melhor do que em 1949 ou 1984.

Porém, um aspecto descrito no livro começa a ganhar força hoje em países como a China. O “big brother” descrito na obra, o olho que tudo vê, está presente na sociedade chinesa através do crédito social chinês. De acordo com reportagem da BBC, “o governo chinês está construindo um onipresente ‘sistema de crédito social’, através do qual o comportamento de cada um dos seus 1,3 bilhão de cidadãos será pontuado em uma espécie de ranking de confiança. Por enquanto, trata-se de um projeto piloto do qual participam oito companhias chinesas. Com a autorização do estado, elas emitem suas próprias pontuações de "crédito social". Mas até o ano de 2020, todos os chineses estarão obrigatoriamente inclusos nesta enorme base de dados, e receberão pontuação de acordo com sua conduta.” [1]

É importante salientar que o desejo de ter controle sobre seus cidadãos não é uma particularidade apenas da China; porém, esse é um país que tem o capital organizacional e tecnológico necessários para levar a cabo tamanha ambição.

Voltando ao noticiário e sua sede de mostrar tragédias, é possível traçar, mais uma vez, um paralelo com a entropia. É mais fácil desorganizar do que organizar, assim como é mais fácil assistir passivamente um noticiário repleto de notícias ruins ou ler livros que preveem um fim apocalíptico da humanidade do que ir em busca de dados que mostrem como, de fato, anda o mundo, e chegar à conclusão de que temos evoluído.

Pinker se dedica a essa tarefa, de forma sistemática, comprovando através de gráficos como vivemos no melhor dos mundos levando-se em consideração os dados em retrospecto no que concerne à saúde, à segurança, à qualidade de vida etc.

No entanto, é importante ressaltar que o progresso não é uma linha reta e contínua rumo à evolução, mas sim uma linha com nuances, com avanços e retrocessos que, no final das contas, tem um saldo positivo. Retomando o exemplo da China, pode-se afirmar que, economicamente, o país nunca esteve melhor. Sua economia é a segunda maior do mundo, superada somente pelos Estados Unidos. Por outro lado, o controle social, a liberdade de expressão e de acesso à informação possuem índices preocupantes.

A violência no Brasil e no mundo
Em dado momento, Pinker dedica várias páginas do capítulo para demonstrar como, de modo geral, os índices de violência diminuíram em todo o mundo ao longo dos séculos. No entanto, dois países fogem a essa regra: Brasil e México [2] . Das 50 cidades mais violentas do mundo, 17 são brasileiras, 12 são mexicanas e 4 são dos Estados Unidos. [3] Interessante observar que, apesar da constante atenção recebida pelo noticiário, São Paulo e Rio de Janeiro não aparecem nessa lista. Em 10 anos, São Paulo reduziu o índice de homicídios em 80% e hoje é uma cidade menos violenta do que Chicago, por exemplo. [4]

A causa da redução dos homicídios em São Paulo ainda não é consenso entre especialistas. Outro ponto importante a observar é que as maiores taxas de homicídio no Brasil se concentram em algumas cidades: dos 5.570 municípios brasileiros, as maiores taxas estão concentradas em cerca de 200 deles.

Com uma assustadora taxa de 30 homicídios por 100 mil habitantes [5] , é interessante comparar esses dados com países vizinhos como Peru (7,7 por 100 mil habitantes) e Chile (4,6 por 100 mil habitantes) e questionar porque no Brasil é tão diferente.

Nesse ponto, é possível pensar, também, na Colômbia, que já passou por um período de altíssimas taxas de violência devido ao tráfico de drogas, passou por uma guerra civil não declarada e que, hoje, possui cidades que passaram por uma verdadeira mudança como Medelín, que já contou com altas taxas de violência e que hoje é considerada uma cidade-modelo. [6]

Além da redução nos índices de violência, São Paulo vem mostrando significativas melhorias na qualidade de vida de sua população, como na expansão do transporte público.

[1] Veja mais em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-42033007

[2] Veja mais em: https://www.valor.com.br/internacional/6131729/guerra-sem-fim-do-mexico-com-drogas

[3] Veja mais em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43309946

[4] Veja mais em: https://www.valor.com.br/brasil/6126875/politicamente-e-mais-facil-liberar-policia-para-matar

[5] Veja mais em https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/brasil-chega-a-taxa-de-30-assassinatos-por-100-mil-habitantes-em-2016-30-vezes-a-da-europa-diz-atlas-da-violencia.ghtml

[6] Veja mais em https://exame.abril.com.br/revista-exame/menos-violenta-e-mais-prospera/

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 09 de março de 2019
Horário: 10h
Leitura e reflexão: Capítulos: 3 – Contrailuminismos e 4 – Progressofobia de “O novo iluminismo”
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

Endereço e
contatos:

Rua Ceará, 2
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São Paulo - SP - Brasil

Tel. (11) 3824-9633