Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

O novo iluminismo – Steven Pinker

No dia 09 de março de 2019, o Instituto Braudel promoveu o terceiro encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 5 e 6.

09/03/2019

A luta pela evolução da vida sadia da humanidade é constante e sempre teve seus contrapontos em todas as épocas. Além do fato de algumas doenças desenvolverem defesas contra os remédios outrora eficazes, há o fato de parte da população precisar ser constantemente educada e convencida a se precaverem e aceitarem os tratamentos disponíveis.

Uma vez que os temas dos capítulos a serem debatidos nesse encontro se concentrariam em longevidade, qualidade de vida e saúde, foi realizada uma rodada inicial sobre a percepção dos participantes em relação aos avanços na saúde e no controle de doenças. Foi citado que, de fato, a medicina tem evoluído muito e gerou ganhos importantes no bem-estar da humanidade. Porém, que os ganhos na medicina não são permanentes e precisam de constante esforço. Lembrou-se, por exemplo, que nas décadas de 80 e 90 houve um grande surto de AIDS. Naquelas décadas, eram comuns notícias e reportagens constantes sobre vítimas fatais da AIDS, inclusive de celebridades, o que assustava a população e a deixava em alerta para se prevenir. Atualmente, pelo fato da doença estar mais controlada no mundo ocidental e portadores do vírus HIV viverem consideravelmente melhor graças aos coquetéis, muitos jovens esquecem que os riscos da doença continuam reais e que é preciso tomar as devidas precauções.

Em dado momento, foi questionado qual a relação entre a evolução na medicina e a evolução na organização social. Ficou evidente que só é possível manter os padrões de saúde adequados e estáveis de uma população quando a vida em sociedade está organizada. Um exemplo atual é o da Venezuela, que com sua vida social e instituições completamente desestruturadas, traz consequências para todos os setores, incluindo a saúde. Recentemente, foi apontado que a Venezuela registrou 84% dos casos de  sarampo das Américas. [1] A quebra das instituições e da economia do país resultam em graves problemas no que se refere à saúde da população. 

Importante lembrar que tudo relacionado à medicina custa caro, desde pesquisas a equipamentos. Para se ter uma ideia, no Brasil o custo médico-hospitalar é 2,8 superior à inflação geral [2] . Isso mostra que, além de organizada, uma sociedade com avanços na medicina precisa de recursos para investir na área.

Febre amarela, cólera e epidemias

Por conta de o assunto sobre saúde ter entusiasmado ao grupo, decidiu-se inverter a ordem da leitura. Começamos, então, com a leitura e debate do capítulo 6 – Saúde.

No início do capítulo, Pinker descreve de forma detalhada e espantosa as graves consequências de um surto de febre amarela, retirado de um relato sobre uma epidemia em Memphis, nos Estados Unidos, em 1878. Embora a descrição de moribundos se arrastando pelas ruas da cidade possa não ser agradável, é necessário contar essa história para que não se esqueça do quão fatal a doença pode ser e de como temos evoluído no controle de epidemias. Além da ciência e da medicina como ferramentas para o controle de epidemias, as medidas sanitárias são fundamentais para os avanços na saúde da população. 

No Brasil, houve um surto de febre amarela entre 2016 e 2017 que deixou muito claro que, além das pesquisas que culminam no desenvolvimento de vacinas, é fundamental uma vida em sociedade organizada que permita evitar e controlar epidemias. Apesar de todos os percalços, milhões de pessoas foram vacinadas a tempo, evitando-se um caos ainda maior no setor da saúde pública.

Um caso de pandemia (epidemia mundial) lembrado no grupo foi o de cólera na América Latina. Em 1991, o Peru foi atingido por uma epidemia sem precedentes da doença, que provocou inúmeras mortes e se alastrou pelos países vizinhos, inclusive o Brasil, onde a doença estava erradicada. A pandemia causou uma reação internacional, uma grande mobilização para controlar a doença. Embora devastadora, a doença causou um número de mortes menor do que teria sido no século XIX, graças aos avanços na saúde e à mobilização internacional.

Higiene e saneamento básico

Pinker nos dá uma breve descrição de como eram as cidades antes do século XX: infestadas de excrementos, a céu aberto, os rios e lagos viscosos de dejetos tinham seu pútrido líquido, marrom usado pelos moradores para beber e lavar roupa. Os séculos XVIII e XIX, embora contassem com grandes avanços em outras áreas, o mesmo não podia ser dito em relação às questões de higiene. A descrição de Pinker nos evoca à descrição que Shakespeare fez em várias de suas peças da Londres dos séculos XVI, nas quais transeuntes, comerciantes e todo tipo de gente se misturavam a um ambiente muito sujo e sujeito a diversas doenças.

Movimentos contra a vacinação

Embora hoje, para boa parte da população, seja natural compreender o funcionamento e saber que vacinas são seguras, é preciso ter certa sensibilidade para compreender por que a vacina pode ter assustado e afugentado tantas pessoas quando de sua invenção.

O método usado para descobrir e desenvolver as primeiras vacinas foi, no mínimo, curiosa. Em 1796, o médico britânico Edward Jenner coletou pus da mão de uma ordenhadora com varíola bovina, raspou-a no braço de um menino de 8 anos e, seis semanas mais tarde, inoculou o menino com varíola, observando depois que ele não pegava a doença. Jenner estendeu seus estudos e relatou que sua vacina era segura em crianças e adultos. Imagine-se, em uma época em que a religião e as superstições ainda dominavam boa parte da população, como seria árdua a tarefa de convencer uma população de que tomar uma dose inofensiva de determinado vírus ou bactéria seria a solução para não ser mais contagiado por uma doença séria.

Os recentes casos de movimentos contra a vacinação, desde os curandeiros em países como o Congo [3] até os religiosos fervorosos de algumas regiões dos Estados Unidos [4] demonstram que, assim como o iluminismo sempre teve movimentos contra iluministas para lutar contra, as vacinas e outros avanços na medicina sempre terão opositores, de forma que será constante a necessidade de lutar contra movimentos irracionais que possam colocar em risco a saúde e o bem-estar das pessoas.  

Avanços e sua permanência na sociedade

Na metade do capítulo, Pinker nos mostra uma tabela com o nome de alguns cientistas, suas inovações, e a quantidade estimada de vidas salvas graças a seus estudos. Variando entre os séculos XIX e XX, é impressionante constatar, em um curto espaço de tempo, a quantidade de inovações médicas que salvaram bilhões de pessoas. Embora tratemos tais inovações como incorporadas e permanentes na vida em sociedade, é preciso estar atento ao fato de que, nem os avanços na medicina nem os avanços institucionais são garantias que sobrevivem ao tempo. Para que elas continuem fazendo parte da humanidade, salvando vidas e evitando tragédias, é preciso um esforço e atenção constantes.

Iniciando o capítulo 5, “Vida”, Pinker descreve um período da história humana, chamado Era Malthusiana, quando eventuais avanços na agricultura ou na saúde eram logo anulados pelo resultante aumento da população. Pinker está se referindo à Teoria Malthusiana, elaborada por Thomas Robert Malthus no ano de 1798 e que defendia que a população cresceria em ritmo acelerado, superando a oferta de alimentos, o que resultaria em problemas como a fome e a miséria. O receio de Malthus não foi concretizado, uma vez que os avanços na produção de alimentos foram impressionantes. Um exemplo está no centro-oeste do Brasil, que em poucos anos se tornou uma das mais importantes fronteiras agrícolas do mundo, produzindo e exportando alimentos para diversos povos.

Os avanços descritos por Pinker e que permitiram que os seres humanos saltassem de uma expectativa de vida média de 35 anos até meados do século XX para os atuais 71,4 anos merecem atenção especial. As instituições e a organização humana podem sustentar esses avanços no futuro ou perigamos um retrocesso? O livro “O novo iluminismo” vem continuamente nos mostrando que nada é garantido e que tudo exige esforço e dedicação constantes rumo à evolução; caso contrário, um retrocesso é muito provável. O próprio autor descreve em seu prefácio como o populismo, por exemplo, pode colocar em risco todos os ganhos de uma sociedade em um curto espaço de tempo.

No caso do Brasil, corremos riscos de retrocessos, especialmente ao constatarmos como o governo gasta boa parte dos recursos públicos na folha de pagamento de funcionários públicos, não investindo em redes de comunicação e infraestrutura. O rompimento da barragem em Brumadinho-MG, em fevereiro desse ano, foi resultado de uma série de negligências e da falta de treinamentos de técnicos e engenheiros. Além disso, a impunidade no caso da barragem de Mariana, em 2015, também contribui para que mais casos como esse continuem ocorrendo.

Pinker nos fala que “A queda no gráfico devido à aids na África nos alerta que o progresso não é uma escada rolante sempre a elevar o bem-estar de todos os seres humanos em todos os tempos. ” Isso nos remete ao fato de que a evolução é, antes de tudo, a resolução de problemas com muita dedicação e esforço, e não uma reta que naturalmente nos leva para um futuro melhor. Além disso, os desafios é que geram crescimento e aprendizados, o que permite a evolução da humanidade. Será possível que o ocorrido em Mariana três anos atrás não tenha resultado em nenhum aprendizado?

Política e incentivos

Os cientistas retratados por Pinker e que contribuíram imensamente para a evolução da saúde graças às suas descobertas, poderiam ter incentivos que incluíssem dinheiro e fama, mas é possível, também, que eles fossem movidos por um desejo genuíno de melhorar a vida humana.

Se a política é um campo de disputa de poder, foi questionado no grupo se na área da saúde haveria mais espaço para uma cooperação humana na busca de soluções. Nesse ponto, foi lembrado que muitos avanços na saúde só ocorreram por conta de pressões sociais, e não pela mera vontade de cientistas e governos. Além disso, para se ter avanços significativos na saúde, é fundamental que haja um ambiente propício para o surgimento de cientistas, investimentos governamentais em universidades e centros de estudo, e os incentivos corretos.

Um exemplo disso foi a descoberta da penicilina. Devido às dificuldades de se produzir penicilina em quantidade suficiente para ser usada no tratamento de pacientes, inicialmente, a descoberta de Fleming não despertou maior interesse na comunidade científica. Foi somente com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, e com fortes investimentos do governo, que os cientistas Howard Florey e Ernst Chain retomaram as pesquisas e conseguiram produzir penicilina com fins terapêuticos em escala industrial, inaugurando uma nova era para a medicina - a era dos antibióticos.

 

[1] Veja mais em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2018/06/09/interna_internacional,965724/venezuela-registra-84-dos-casos-de-sarampo-das-americas.shtml

[2] Veja mais em: https://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/custo-medico-hospitalar-no-brasil-28-superior-inflacao-geral-22604425

[3] Veja mais em https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,na-africa-visita-a-curandeiros-pode-agravar-epidemia-do-ebola,70002748260

[4] Veja mais em https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2018/11/pais-negam-vacinacao-e-escola-dos-eua-sofre-surto-de-catapora.html

 

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 23 de março de 2019
Horário: 10h
Leitura e reflexão: Capítulos: 3 – Contrailuminismos e 4 – Progressofobia de “O novo iluminismo”
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

Endereço e
contatos:

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Tel. (11) 3824-9633