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O novo iluminismo – Steven Pinker

No dia 09 de fevereiro de 2019, o Instituto Braudel promoveu o primeiro encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 1 e 2.

09/02/2019

Resumo do debate realizado por Aline Vieira, supervisora de projetos no Instituto Fernand Braudel.

No dia 09 de fevereiro de 2019, o Instituto Braudel promoveu o primeiro encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 1 e 2.

O novo Iluminismo é um livro que exalta as conquistas da humanidade, mesmo em tempos de grandes desafios. Pinker escreve esse livro em um momento muito delicado no Brasil e no mundo, no qual a ciência, a razão e as instituições estão sendo colocadas em xeque e precisam ser defendidas. Assim como Pinker, muitos pensadores produziram grande sobras em tempos difíceis.

Platão escreveu a “República”, obra que se tornou a pedra angular do conceito de política e organização social, em um período marcado por uma série de invasões e conflitos (Guerras Médicas, Guerra do Peloponeso, dentre outras). Maquiavel escreveu “O príncipe” em Florença, na Itália, cidade que presenciava no século XVI, ao mesmo tempo, um crescimento cultural, acúmulo de riquezas e conflitos entre cidades. John Milton, grande intelectual inglês do século XVII, viveu no momento da guerra civil inglesa, com muitos conflitos entre católicos e protestantes, ao mesmo tempo em que a realeza enfrentava um parlamento que exigia uma diminuição de seus poderes. Esses são exemplos que mostram que tempos conturbados podem ser propícios para o surgimento de novas ideias e novas lideranças que deixem seu legado para as futuras gerações.

O que é o Iluminismo
O capítulo 1 inicia com uma explicação sobre o que é o iluminismo. Nas palavras de Kant, “é a saída do ser humano da menoridade de que ele próprio é culpado”. Nesse ponto, é importante uma ressalva: o termo original, enlightenment, foi traduzido para o português como “iluminismo”; porém, tal termo tem uma conotação muito religiosa no português. Uma tradução mais acurada seria “esclarecimento”, posto que esse movimento intelectual teve por objetivo esclarecer as relações entre a humanidade e o universo.

Citando David Deutsch, Pinker afirma que “Problemas são solucionáveis e cada mal específico é um problema que pode ser resolvido”. A ideia de que há soluções para problemas e que estas geralmente vêm de lições vindas de eventos passados nos remete ao Brasil e aos recentes acontecimentos. Se essa lógica fosse aplicada tal qual, o rompimento da barragem de Brumadinho, que ocorreu há algumas semanas, não deveria ter acontecido, pois o rompimento de 2015 em Mariana deveria ter deixado as lições necessárias para que tal tragédia não ocorresse novamente. Por outro lado, em setores como o tráfico aéreo, as soluções parecem serem melhor aprendidas. Um exemplo disso foi o acidente aéreo de 2006 envolvendo um avião da Gol e um Legacy, cujas lições foram absorvidas pelo setor aéreo, fazendo dos voos mais seguros.

A ciência e a razão
Ao falar sobre a ciência, é muito interessante um trecho que retrata o que um inglês bem instruído de 1660 sabia sobre o mundo: “Ele acreditava que bruxas podem invocar tempestades para afundar navios no mar. Acredita em lobisomens, ainda que por acaso essas criaturas não existam na Inglaterra – sabe que existem na Bélgica. Acredita que Circe de fato transformou e porcos a tripulação de Odisseu. Acredita que camundongos surgem por geração espontânea em montes de palha. Acredita em magos contemporâneos. Ele já viu um chifre de unicórnio, mas não um unicórnio. ”

As fantasias de um inglês do século XVII pré-Revolução Industrial são amplamente descritas nas obras de William Shakespeare e retratavam as crenças de uma época na qual a magia era parte da realidade cotidiana. Nesse ponto, o iluminismo estabelece fronteiras entre acreditar e existir, libertando o homem da superstição e da culpa por tudo o que acontece no universo.

A libertação da ignorância só foi possível graças ao esforço conjunto de pensadores de diferentes regiões (Montesquieu, Diderot e Rousseau na França, Smith na Escócia, Kant na Prússia etc) que, mesmo com as dificuldades de comunicação inerentes à época, puderam trocar ideias entre si, em uma busca de entender mais o homem e o universo. Esses homens foram psicólogos evolucionários e identificaram que, o que a humanidade projetava como algo externo (monstros e punições divinas) eram, na verdade, instintos animais internos na natureza humana e que precisavam e poderiam ser vencidos com a razão.

Violência
No que concerna a violência, Pinker associa o Iluminismo ao termo “Revolução Humanitária”, pois foi graças a esse movimento que foram abolidas práticas bárbaras como a tortura e a escravidão. Isso não significa, porém, que hoje, no século XXI, o mundo inteiro tenha abolido tais práticas (basta lembrar das atrocidades do Talibã, por exemplo) e que todos os instintos animalescos e violentos tenham sido extirpados.

No entanto, é uma evolução que, atualmente, grande parte da humanidade classifique as ações do Talibã como atrocidades, e não como parte do cotidiano. É preciso ter em mente que, até alguns séculos atrás, queimar pessoas na fogueira e assistir a execuções em praças públicas era entretenimento para grande parte da humanidade.

A ideia de que um criminoso pode ser ressocializado, e não meramente punido sob um sentimento de vingança, também é um grande avanço na história da humanidade. Com muito esforço e racionalização, pode-se crer que o tratamento dado a crimes e criminosos se tornará cada vez mais humanizado.

Ao longo dos capítulos, Pinker demonstra através de dados e gráficos a evolução da humanidade em diferentes aspectos da vida: meio ambiente, saúde, trabalho, segurança etc. Em relação à violência, constata-se que, no mundo todo, os índices de violência decaíram ao longo do século. Porém, o Brasil vai no sentido contrário, com índices alarmantes que aumentam a cada ano . Como explicar tal situação quando países vizinhos e mais pobres, como Colômbia, Bolívia e Peru, têm diminuído seus índices de violência ano após ano?

Uma resposta pode ser um fato que Steven Pinker reforça ao longo de todo o livro: a evolução e a melhoria na qualidade de vida exigem esforço e constância, de forma que estamos sempre vivendo em uma luta entre evolução e degradação. Assim, é possível para o Brasil diminuir seus índices de violência, como outros países o fizeram; porém, isso exigirá um esforço constante e coletivo.

Explicação da riqueza
Uma outra contribuição de suma importância do Iluminismo foi a racionalização da produção de riqueza. Nessa área, destaca-se, principalmente, Adam Smith, cuja obra-prima “A riqueza das nações” foi trabalhada no ciclo do segundo semestre do colóquio em 2018. Ao detalhar o processo de comercialização e especialização da mão de obra, Smith demonstrou como é possível criar e multiplicar riquezas.

Ao exaltar a cooperação como uma atividade intrinsicamente humana, Smith expõe o que hoje chamamos de jogo de soma positiva. Como parte da teoria do jogo, o jogo de soma positiva é aquele em que, ao realizar uma troca, ambas as partes saem ganhando, pois recebem em troca algo mais valioso para si do que aquilo que tiveram que ceder.

Entropia
Um conceito importante que é retomado ao longo do livro é o de entropia. Simplificando o conceito, entropia se refere à troca de energia entre dois corpos e que causará, inevitavelmente, desordem em um sistema. Assim, no universo, existem muitas forças que podem levá-lo à entropia, à desordem, e nossa luta diária é desenvolver forças que mantenham o sistema ordenado e organizado.

Fica claro que há muito muitas forças que levam o mundo para a entropia e para o caos do que forças que levem para a organização (um exemplo simples é lembrar que há muito mais maneiras de desarrumar um ambiente do que deixá-lo organizado). Assim, é necessário um esforço constante da humanidade para fazer frente à entropia, lutando por um mundo um lugar mais civilizado e organizado. Na sociedade, é necessária uma interferência maior das instituições a fim de que a civilização e a ordem prevaleçam sobre o caos e a entropia.

Basta lembrar que, quando não se faz nada, o caos toma conta: se deixarmos crianças soltas em uma sala sem supervisão de adultos, o ambiente virará uma bagunça e elas podem se machucar; se não forem feitas as vistorias de uma barragem, ela se romperá; se não rem realizados investimentos em segurança pública de forma constante, os índices de violência dispararão etc.

Os últimos acontecimentos que ganharam os noticiários no Brasil revelam um momento de entropia. Para contornar esse momento, são necessárias organização e o fortalecimento das instituições. No entanto, por que não surgem novas lideranças e novas ideias que somem esforços a fim de vencer esses desafios?

Por outro lado, é de se admirar que, mesmo vivendo tantos momentos de desordem, o país ainda não tenha se degradado por completo. Isso pode ser explicado por algumas forças a serem exaltadas e que ainda prevalecem: a fronteira agrícola desenvolvida em tempo recorde, com as tecnologias mais sofisticadas do mundo; o pré-sal e os técnicos da Petrobras que, a despeito de tantos escândalos de corrupção, continuaram trabalhando duro e superaram as metas de produção estabelecidas; o lado criativo do brasileiro que deve ser preservado.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 23 de fevereiro de 2019
Horário: 10h
Leitura e reflexão: Capítulos: 3 – Contrailuminismos e 4 – Progressofobia de “O novo iluminismo”
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

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