Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

O novo iluminismo – Steven Pinker

No dia 06 de abril de 2019, o Instituto Braudel promoveu mais um encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 12 - Segurança e 13 – Terrorismo.

06/04/2019

No dia 06 de abril de 2019, o Instituto Braudel promoveu mais um encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulos 12 - Segurança e 13 – Terrorismo.

A humanidade mais segura

Pinker inicia o capítulo falando sobre como, de maneira geral, a humanidade hoje se encontra em uma situação de muito mais segurança. Se até alguns séculos atrás homicídios eram a maior causa de mortes, hoje em dia, nos Estados Unidos, a morte por conta do consumo de opioides vem apresentando números preocupantes, sobretudo entre a geração dos baby boomers. De acordo com Pinker, “Overdoses por opioides legais e ilegais tornaram-se uma grande ameaça, matando mais de 40 mil pessoas por ano e elevando o ‘envenenamento’ à maior categoria de mortes acidentais, acima até dos acidentes de trânsito.” Já entre os jovens brasileiros, dentre as maiores causas de mortes se encontram a violência interpessoal e o suicídio.

O fato de que, em maneira geral, países de todo o mundo tiveram suas taxas de violência em declínio é resultado de um processo civilizatório iniciado na Europa e que se espalhou pelo mundo. Até 800 anos atrás, os países europeus eram muito violentos, e saques constantes e assassinatos faziam parte da rotina de sua população.

Diante desse fenômeno, cabe perguntar: “O que faz os países se civilizarem?”  Dentre as respostas apresentadas pelo grupo, destacam-se: (1) a presença do Estado e a criação e fortalecimento das instituições, que regula a vida em sociedade (2) o comércio e a cooperação anteriormente apresentados por Adam Smith, o que gera dependência entre países e acordos de não-violência (3) uma sociedade menos desigual tem menos probabilidade de ser uma sociedade violenta.

Brasil e as cidades mais violentas do mundo

Embora o índice de violência esteja caindo gradualmente em boa parte dos países do mundo, o Brasil segue o caminho inverso, com taxas de homicídio que sobem a cada ano. Dentre as 50 cidades mais violentas do mundo[1], 17 são brasileiras e, ao contrário do que diz o senso comum, São Paulo e Rio de Janeiro não estão entre elas.

É interessante observar que algumas das cidades brasileiras que constam no ranking têm forte apelo turístico, como Natal (RN), Fortaleza (CE), Maceió (AL), Aracaju (SE), Recife (PE) e Salvador (BA). Uma possível explicação para isso é o fato dessas cidades receberem mais investimentos nos grandes centros turísticos, enquanto a periferia fica sem amparo e sem investimentos que combatam a violência.

Diante do fato de ter 17 cidades brasileiras dentre as mais violentas do mundo, é de se questionar por que as autoridades brasileiras não fazem nada a respeito e não elaboram um plano específico que atendam a essas cidades. O fato é que o combate à violência se dá de maneira gradual com ações incrementais que levam mais tempo para surtirem efeito, como investimentos em educação e cultura.

Políticos populistas que estejam unicamente interessados em angariar votos acabam optando por medidas mais drásticas que supostamente trariam resultados em um curto espaço de tempo, como armamento da população ou, até mesmo, a construção de um muro (vide o caso Trump). Tais medidas tem um ar falsamente pragmático e acabam por atender aos desejos da população, embora não surtem efeitos de longo prazo no combate à violência.

O exemplo de Medellín

Recentemente, tivemos no Instituto Fernand Braudel um seminário com Anibal Galviria, ex-prefeito de Medellín, cidade que se tornou modelo em inovação e no combate à violência[2]. Durante muitos anos o narcotráfico esteve muito forte na cidade, o que gerou uma onda de violência sem precedentes, incluindo atentado a voos e a líderes políticos. Medellín era uma das cidades mais estratégicas para o cartel de drogas comandado por Pablo Escobar, e contava com índices galopantes de homicídios. A situação chegou em um ponto de inflexão em que ou a sociedade se desintegraria por completo ou começava a se estruturar.

Foi a partir de uma política de Estado, e não de governo, que contou com diversos mandatos de prefeitos diferentes, que a situação começou a mudar. Um dos pontos de virada foi a inovação urbana, com a criação de espaços públicos atrativos para a população. O exemplo de Medellín deixa claro que o combate à violência não pode se resumir a mais armamentos e policiais; é necessário prevenir os danos com investimentos públicos em cultura, lazer e educação.

Em Recife temos um exemplo parecido com o que ocorreu em Medellín com a criação do Compaz - Centro Comunitário da Paz. O espaço de cidadania e promoção de Cultura de Paz oferece diversos atendimentos e atividades esportivas. O Compaz foi concebido sob a ideia de oferecer “o melhor para os mais pobres”, com o objetivo de garantir inclusão social e fortalecimento comunitário. O espaço conta com biblioteca, atividades esportivas e culturais, Procon, mediação de conflitos, atendimento especializado às mulheres vítimas de violência, aulas de Inglês, Espanhol e reforço escolar (Português e Matemática)  estão entre as atividades oferecidas[3]. Desde a criação do Compaz, verificou-se uma queda nos índices de violência nos bairros próximos a esse equipamento público, indo na contramão do aumento generalizado de violência que ocorreu em Recife. 

Tanto os casos do Compaz em Recife quanto as inovações urbanas em Medellín mostram que há ética na estética e que bons equipamentos públicos localizados na periferia têm por resultado aumento da confiança e autoestima da população, prevenindo altas nos índices de violência da região. Porém, vale mencionar que em Medellín, após anos de queda regular, os índices de violência voltaram a subir. Isso prova, mais uma vez, a teoria sobre a entropia: quando o governo não centra esforços investindo de maneira contínua nas questões de segurança pública, a entropia ressurge e a violência volta a crescer.

São Paulo também tem vivido um decréscimo significativo na taxa de violência, em uma velocidade que ultrapassa até mesmo cidades de países desenvolvidos como Nova York. No entanto, é importante ressaltar que, assim como mostra o caso de Medellín, contar com espaços de cultura e lazer na periferia é fundamental para manter baixa a taxa de homicídios. Assim, é preocupante ver a decisão do governo estadual em reduzir verbas para projetos de cultura como o projeto Guri, que forma jovens músicos, e para as bibliotecas públicas estaduais. Caso esses cortes se confirmem e equipamentos sejam fechados, a taxa de violência se manterá a mesma?

Terrorismo

Antes de se adentrar à questão do terrorismo, é importante compreender o termo e saber que há vários tipos de terrorismo. O terrorismo é, antes de tudo, o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, pânico e, assim, obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas. É utilizado por uma gama de grupos como forma de alcançar seus objetivos, como organizações políticas, grupos separatistas e até por governos no poder, este último se constituindo como “terrorismo de estado”. Outro ponto a se destacar é que o terrorismo não está necessariamente conectado às questões de fundamentalismo religioso, em que muitos terroristas esperam morrer no ato por acreditarem em uma recompensa. Em outros casos, seus praticantes pretendem sobreviver, como no caso dos grupos terroristas da Irlanda do Norte.

 No início do capítulo sobre terrorismo, Pinker nos apresenta uma tabela em que as mortes por terrorismo apresentam números muito mais baixos que mortes por acidente ou homicídios, por exemplo.

Os números mostram como a questão do terrorismo, embora muito séria, acaba sendo hiperbolizada, dando uma dimensão muito maior ao que, de fato, é. Isso contribui para uma histeria generalizada, o surgimento de líderes populistas que se aproveitam do medo da população para propor soluções mágicas e, no final das contas, o objetivo dos terroristas acaba sendo bem-sucedido: chamar a atenção.

Não só a mídia é responsável por exagerar a dimensão de ataques terroristas, mas governos de alguns países se aproveitam desses momentos para aterrorizar ainda mais a população e, inclusive, justificar a invasão e guerra contra outros países. De acordo com Pinker, “O efeito mais danoso do terrorismo é a reação exagerada dos países, e um excelente exemplo disso são as invasões do Afeganistão e Iraque lideradas pelos Estados Unidos depois do Onze de Setembro”.

Outro ponto a destacar é a recomendação de não se divulgar o nome do responsável pelo ataque terrorista, justamente para que este não tenha seu objetivo alcançado. O recente ataque ocorrido na Nova Zelândia ilustra bem essa recomendação, posto que a primeira ministra fez questão de não citar o nome do terrorista em declarações para a imprensa, nem em processos jurídicos

O fato é que o terrorismo mudou radicalmente as políticas de segurança na Europa e em boa parte do mundo. Os serviços de inteligência se desenvolvem cada vez mais e locais de grande circulação como aeroportos passaram a contar com segurança reforçada.

 

[1] Veja mais em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43309946

[2] Veja mais em https://exame.abril.com.br/revista-exame/menos-violenta-e-mais-prospera/

[3] Veja mais em http://www2.recife.pe.gov.br/18/05/2016/centro-comunitario-da-paz-compaz-governador-eduardo-campos

 

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 27 de abril de 2019
Horário: 10h
Leitura e reflexão: Capítulos: 12 - Segurança e 13 - Terrorismo
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

Endereço e
contatos:

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Tel. (11) 3824-9633