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Salvando Adam Smith do mito e da deturpação

Smith aplicou conceitos econômicos a novas questões

01/08/2018

Artigo originalmente publicado na The Economist em 26 de julho de 2018
Tradução: Aline Vieira, supervisora de projetos no Instituto Braudel

Dizem que Margaret Thatcher carregava uma cópia de “A Riqueza das Nações”, a obra mais famosa de Adam Smith, em sua bolsa. O economista mais famoso da Grã-Bretanha aparece no verso das notas de 20 libras. No entanto, embora algumas ideias famosas estejam associadas a ele - a “mão invisível”, a divisão do trabalho, o interesse próprio - o que ele realmente escreveu é, muitas vezes, mal interpretado.

Jesse Norman, um membro britânico do parlamento que estudou Filosofia e um dos melhores cérebros do Partido Conservador, quer colocar isso em ordem. Autor de uma célebre biografia de Edmund Burke, Norman não apenas explica os escritos de Smith, que vão da astronomia ao colonialismo, mas também mostra que eles ainda são relevantes hoje em dia.

Smith viveu em uma época de grandes mudanças, quando a Revolução Industrial estava em andamento e mais pessoas questionavam a autoridade da religião. A Escócia era, em muitos aspectos, um lugar mais progressista do que a Inglaterra e, como professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow, Smith estava no epicentro disso.

Em "A Riqueza das Nações" e em outro trabalho seu menos conhecido, "Teoria dos Sentimentos Morais", Smith expôs os benefícios dessas mudanças. Seu entusiasmo pelo pensamento livre o colocou no caminho do ateísmo, embora ele não tenha ido tão longe quanto seu amigo David Hume. Ele acreditava que o livre comércio era uma força do bem. Ele aplicou conceitos econômicos a novas questões, como a escravidão, argumentando que o trabalho escravo era mais caro do que o trabalho assalariado, porque os escravos não tinham incentivo para produzir mais do que o mínimo.

Embora o Sr. Norman prossiga em um ritmo mais rápido, ele aborda praticamente o mesmo tema que Nicholas Phillipson em sua recente biografia intelectual de Smith. E, como Phillipson, Norman preza sua discussão sobre o trabalho de Smith com detalhes sobre o dia a dia do economista. Smith passou seis anos sofridos como estudante na Universidade de Oxford, onde ele achava o ensino muito inferior ao que ele poderia obter na Escócia.

Alguns leitores acharão que o fracasso dos mitos relacionados a Smith é o tema mais interessante do livro. Ao contrário do que é frequentemente dito, o escocês não defendia o interesse próprio de forma implacável. A primeira frase de “Teoria dos Sentimentos Morais” diz: “Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pelo sucesso de outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada obtenha disso senão o prazer de assistir a ela”.

A noção de Smith da "mão invisível" também é mal compreendida. O termo é frequentemente usado para significar que o mercado sempre produzirá o melhor resultado. A realidade é mais complexa. É verdade que Smith acreditava nos mercados - e em um grau radical. Mas ele viu muitos casos em que os mercados precisavam ser regulados. Smith era até mesmo favorável ao estabelecimento de limites para as taxas de juros cobradas em empréstimos, uma política que poucos economistas modernos apoiariam.

Norman faz tudo certo, mas ele não é o primeiro a fazê-lo. O "The Worldly Philosophers", de Robert Heilbroner, publicado em 1953, ofereceu uma compreensão bastante sutil do que Smith representava. Mais recentemente, Emma Rothschild, uma das melhores historiadoras do pensamento econômico mundial, e Amartya Sen escreveram amplamente sobre os “usos e abusos” de Smith. No entanto, o livro cita algumas de suas contribuições - até mesmo um artigo fascinante que Rothschild escreveu em 1994, que explora o uso que Smith faz da expressão “mão invisível”.

O livro faz um trabalho insatisfatório ao lidar com os críticos de Smith. Escritores de Murray Rothbard e Joseph Schumpeter a Salim Rashid argumentam que as ideias de Smith são mal elaboradas, até mesmo plagiadas. Norman aceita que a discussão de Smith sobre o que constitui valor é confusa, mas ele tem pouco tempo para os pessimistas. Ele rejeita a crítica de Rothbard em uma nota de rodapé como “manifestamente injusta e imprecisa” sem explicar o motivo; as objeções de Schumpeter são postas de lado; o trabalho do Sr. Rashid não é sequer mencionado. Como resultado, as grandes reivindicações do livro sobre Smith, incluindo que a "A Riqueza das Nações" é "a maior obra da ciência social já escrita", não são convincentes.

O autor está em terreno mais seguro quando explica a relevância das ideias de Smith hoje. Economistas, especialmente na América, cada vez mais se preocupam com o fato de o capitalismo ter se tornado muito confortável - ou “manipulado”, como o presidente Donald Trump coloca. Smith chegou primeiro. Ele se queixava de que os capitalistas sempre tentariam explorar as pessoas comuns, seja moldando a regulamentação a seu favor ou fixando preços. "A taxa de lucro (...) é sempre maior nos países que estão indo mais rapidamente para a ruína", argumentou. A taxa de lucro corporativo da América está atualmente em máximas históricas. Se os reguladores tivessem lido mais Smith, a economia americana poderia estar em melhor forma.

Artigo original:
https://www.economist.com/books-and-arts/2018/07/26/rescuing-adam-smith-from-myth-and-misrepresentation

O Instituto Fernand Braudel realizará, a partir de 04 de agosto, encontros para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. Para mais informações, clique aqui.

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