Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

O grande inquisidor – capítulo do livro "Os irmãos Karamazov", de Dostoievski

30/06/2018

Iniciamos o encontro com um breve resumo da vida de Dostoievski e da obra Os Irmãos Karamazov a fim de dar um contexto para o grupo. Quando jovem, Dostoievski foi um liberal que fazia parte de um grupo de pessoas de sua idade com ideais parecidos. Ele viveu durante o século XIX, marcado pela era dos Czares na Rússia, com uma polícia muito conservadora. Como resultado de suas ideias e atividades, acabou sendo preso e chegou a ser levado para ser fuzilado – o que não passava de uma simulação da polícia. Como punição, foi levado para uma prisão na Sibéria por 10 anos.

Após ser libertado, Dostoievski se torna muito religioso e reacionário. Acometido pela epilepsia, os ataques da doença vinham acompanhados de grandes picos de criatividade e súbita compreensão de questões muito profundas. Sua criatividade explosiva estava fisicamente incorporada à sua doença.

Os irmãos Karamazov é, no fundo, uma história sobre redenção. A história gira em torno do assassinato do patriarca da família Karamazov, Fiódor Karamazov, e os dilemas de seus filhos para descobrir quem foi o assassino. Cada um dos filhos possui uma personalidade própria e são muito diferentes entre si. Ivan é um intelectual niilista que não acredita em nada, uma possível alusão ao próprio Dostoievski quando jovem. Aliócha é o chamado “redentor de almas” que vive em um mosteiro e despertava o melhor das pessoas que o rodeavam. Era discípulo de Zossima, que o convence a ir para o mundo ao invés de ficar no mosteiro. Dmitri era um sentimentalista, com um bom coração e muito mulherengo e festeiro. É apaixonado por Grúchenka, disputando-a com seu próprio pai. Por fim, temos Smierdiakóv (nome que, em russo, significa “aquele que cheira mal”), um filho bastardo e epilético, fruto de uma relação extraconjugal entre Fiódor e Lizavieta, uma mulher com sérios problemas mentais.

O tema do parricídio na obra influenciou grandes pensadores posteriormente, como o próprio Freud. Décadas depois, o escritor alemão Thomas Mann também escreveu um ensaio sobre Dostoievski, afirmando que sua epilepsia era um orgasmo reprimido.

Iniciamos a leitura do capítulo que é um poema de autoria de Ivan, que o recita para seu irmão Aliócha. O poema trata da volta de Cristo para a Espanha do século XV, no ápice da inquisição. Em seu retorno, Cristo realiza milagres no meio da multidão, mas logo é preso pelo Grande Inquisidor, um cardeal de 90 anos com muito poder e influência sobre o povo. Na narrativa, o inquisidor submete Cristo a um extenso interrogatório, colocando em questão temas como a liberdade e a subserviência. Em nenhum momento Cristo o responde; somente ao final da fala do cardeal, o filho de Deus beija-lhe o rosto e o cardeal, de forma inesperada, abre a porta para que ele vá embora. O Grande Inquisidor, afinal, é vencido pelo amor de Cristo.

O capítulo é um diálogo autorreflexivo de Ivan e remete ao ambiente instável da Rússia na virada do século XIX para o século XX. Com a iminente queda dos Czares, há uma busca por uma nova moralidade e valores que sejam a base da sociedade.

Um dos questionamentos desse capítulo é como conciliar a redenção e a fraqueza humana. A própria figura de Cristo é muito interessante, pois ele era humano e Deus ao mesmo tempo, o que muito fascinava Dostoievski. Basta lembrar que, em alguns trechos bíblicos, Cristo é tomado por sentimentos muito humanos como a raiva e a desesperança, chegando a questionar por que Deus tinha o abandonado no momento da crucificação.

Um dos temas mais abordados nesse trecho é o da liberdade. O grande inquisidor diz a Cristo que o homem não quer a liberdade, mas sim pão e segurança. Para ele, a humanidade deu muitas provas de que sempre está disposta a trocar sua liberdade por qualquer coisa que lhes dê subsistência. Um dos participantes do grupo lembrou de Kant em “O que é iluminismo”, especialmente quando o filósofo afirma que a preguiça e a covardia impedem a busca do homem pela liberdade.

Vivemos em um momento político em que a fala do grande inquisidor parece encontrar ressonância. Foi lembrado que, recentemente, a Turquia reelegeu Erdogan, um líder político e religioso muito conservador e com aspirações a se manter no poder por muito tempo, transformando o país em uma ditadura. Em busca de razões que expliquem por que a população reelegeu uma pessoa tão autoritária é que, uma vez que a Economia do país esteja estável e crescendo – como é o caso da Turquia – a população não faz questão de viver um regime político com maior liberdade. Mesmo no Brasil, que vive uma crise econômica sem precedentes, há grupos que clamam pelo retorno da ditadura militar, estando dispostos a abrir mão da liberdade por uma suposta melhora na economia, na esperança de ter mais empregos e estabilidade. Aparentemente, em momentos de crise econômica, o regime político instaurado, seja uma democracia, seja uma ditadura, é passível de questionamentos.

O jovem Ivan também nos remete a Nietsche, em sua obra “Crepúsculo dos ídolos”, no qual o filósofo se lança contra os “ídolos” tanto da antiguidade como da modernidade, em um movimento de desconstrução de ideias e pessoas endeusadas. Ivan também está, através da fala do cardeal, desconstruindo algumas ideias bases do cristianismo. Outra referência ao filósofo alemão foi a célebre frase “Deus está morto”, que aparece em diversas obras, dentre elas “Assim falou Zaratustra”, questionando como a humanidade sobreviverá sem uma divindade a ser cultuada. Este também é um tema que aparece na obra “Kouros”, uma releitura do mito de Teseu feita por Nikos Katzanzakis: quando o rei Minos e Ariadne se dão conta de que não existe mais uma fera no labirinto a aterrorizar a população com seus urros constantes, mantendo-a quieta e obediente, surge o receio de que a sociedade vire um caos, pois não haveria mais o medo da punição.

Outro ponto de reflexão nesse capítulo é o foco na relação do indivíduo com Deus quando, na verdade, o cristianismo tem por base uma relação coletiva com o divino. A livre escolha é um preceito forte no protestantismo e também é largamente discutida nesse capítulo. O cardeal argumenta que a liberdade proposta por Cristo, no fundo, está condicionada a seguir suas leis, e no momento em que se é obrigado a fazer algo, o conceito de liberdade não existe mais.

Transcendendo o campo religioso, a leitura nos fez pensar em como se constitui a governança dos países. Seguindo o ponto de vista do cardeal, as pessoas precisam de uma liderança e seguem aquele que lhes promete pão e segurança. Assim, os governos que se mantêm no poder são os que conseguem fazer as promessas certas à população.

Uma reflexão importante que permeia toda a obra Os irmãos Karamazov é que a humanidade pode sair do raso e chegar a um outro estágio de evolução, que seria a cooperação humana. Isso fica claro em vários momentos do livro como, por exemplo, quando Aliócha, aconselhado por Zossima, sai do mosteiro para construir relações no mundo através do encontro humano e quando Ivan dá dinheiro para que Dmitri, preso injustamente acusado de ter matado seu pai, fuja da prisão.

Essa ideia da cooperação como um estágio avançado da humanidade está muito clara na bíblia. No Velho Testamento, tem-se a necessidade de um líder autoritário e punitivo. Na passagem para o Novo Testamento, a subjugação dá lugar à cooperação. Isso fica evidente na própria figura de Jesus que, contrapondo à imagem de um ser todo poderoso que faz tudo sozinho, conta com apóstolos que o seguem em sua jornada. Outro ponto é que Cristo delega a Pedro, um humano, a fundação de sua igreja. Este seria o início de uma sociedade mais justa e democrática, baseada na coletividade.

O livro Os Irmãos Karamazov dialoga muito com essa ideia da cooperação: uma das ideias principais do livro é a do amor ativo e que o encontro humano genuíno é capaz de salvar a vida de uma pessoa.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 14 de julho de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão do prefácio do livro "José e seus irmãos", de Thomas Mann. Serão distribuídas cópias gratuitas no encontro.
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