Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza

Resumo dos Capítulos 7 e 9

14/04/2018

Capítulo 7 – A reviravolta
O início do capítulo traz um interessante episódio que se passou na Inglaterra do século XVI. William Lee, após verificar o longo tempo necessário para tricotar um barrete de tricô, item do vestuário obrigatório na época, inventou uma máquina de tricotar muito mais rápida e eficaz. Porém, para sua surpresa, sua invenção foi rechaçada pela rainha Elisabeth I e, mais tarde, por Jaime I. Como justificativa, os monarcas afirmaram que seria um perigo deixar tantas pessoas subitamente ociosas, o que poderia gerar uma revolução e instabilidade política; os autores chamam a atenção para o fato de ambos monarcas terem medo da destruição criativa, posto que ela pressupõe uma mudança de paradigma e pode ameaçar o poder da elite governante de um país.

É importante lembrar que o termo “destruição criativa” foi primeiramente utilizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter; ele defendia que as inovações dos empresários são a força motriz do crescimento econômico, apesar de que poderia destruir empresas bem estabelecidas, reduzindo desta forma o monopólio do poder. Schumpeter afirmava que o capitalismo vive de tempestades de destruição criativa, em um constante processo de renovação. Para ele, a missão do capitalismo não era produzir meias de seda para a rainha, mas, sim, para todos, inclusive para a moça que trabalhava em um escritório comum.

Além da resistência da monarquia inglesa do século XVI em permitir uma inovação tecnológica, pelo lado dos trabalhadores também haveria uma resistência, posto que grande parte da população ficaria desempregada. Este ainda é uma questão nos dias atuais; basta lembrar de quando foi decidido que os cobradores de ônibus coletivos seriam dispensados com a invenção de bilhetes eletrônicos e a responsabilização do motorista por fazer cobranças de passagem em dinheiro. O movimento de cobradores contrários à decisão foi grande, pois eles temiam o desemprego, de forma que essa transição ainda não foi realizada por completo. Outro exemplo citado foi a criação de tubos que levassem o petróleo para o oleoduto de forma simples e rápida, sem a necessidade de pessoas carregando barris. Diante da perspectiva de desemprego, o sindicato dos estivadores – forte no mundo todo – se mobilizou e os estivadores conquistaram o direito de terem uma renda garantida para duas gerações, posto que este era um trabalho passado de pai para filho.

De maneira mais global, o avanço da inteligência artificial também gera receio entre muitos profissionais que receiam ficam sem emprego a médio prazo. O fato é que a transformação social proporcionada pela inteligência artificial é uma ruptura violenta e coloca em questão até que ponto o governo continuará responsável pela geração de empregos. O Estado passou a assumir tal responsabilidade nos anos 30, com o New Deal de Roosevelt.

Sobre essa questão, alguns países desenvolvidos, como a Suécia, vêm discutindo projetos de renda mínima para sua população, prevendo que boa parte dos trabalhos realizados por humanos hoje serão brevemente desempenhados pela inteligência artificial e as pessoas terão que ter uma maneira de garantir sua sobrevivência em um mundo potencialmente sem trabalho para elas.

O medo expressado por Elisabeth I é compreensível e tinha fundamentos. De fato, a revolução industrial trouxe grandes avanços tecnológicos, mas, ao mesmo tempo, gerou muito desemprego, mendicância e movimentos contrários como o ludismo, o que gerou instabilidade na sociedade. Foram necessárias algumas décadas para que países como a Inglaterra encontrassem um equilíbrio a fim de que sua população não ficasse na miséria.

Estamos diante de um momento de ruptura e de destruição criativa com a evolução da inteligência artificial e precisaremos criar uma nova sociedade. Focando no curto e médio prazo, alguns sistemas educacionais já estão se preparando para essa nova sociedade, preparando alunos por meio de um currículo de competências que serão necessárias em qualquer tipo de sociedade, como a resiliência, o trabalho em grupo, a empatia e a capacidade de resolver conflitos, não restringindo o currículo a conteúdos técnicos que logo estarão defasados.

Os autores afirmam que a Inglaterra do século XVI era regida sob instituições essencialmente extrativistas. O Brasil seria um país com instituições extrativistas? Se pensarmos que 35% do PIB brasileiro vem de impostos e apenas 1% é investido em infraestrutura, então conclui-se que o governo brasileiro extrai muito e não oferece serviços públicos de qualidade para sua população. Muito do dinheiro arrecadado de impostos está com a elite, em paraísos fiscais, na forma de privilégios para altos cargos do setor público e perdido por corrupção nos mais diversos setores. Países sul americanos como o Peru, por exemplo, se mostram muito mais eficazes em termos de gastos públicos, embora sejam necessárias ressalvas ao comprar dados dos dois países.

Mais à frente do capítulo, os autores apresentam uma teoria sobre por que, a despeito de séculos de resistência à destruição criativa, a revolução industrial aconteceu na Inglaterra. Os autores levantam fatos como a revolução gloriosa, as mudanças decorrentes da peste negra – que dizimou de 30% a 50% de toda população europeia - e o controle do poder monárquico por parte do parlamento para justificarem essa questão. Porém, há outros fatos externos que contribuíram para que a revolução acontecesse em terras inglesas. Um deles foi a invenção da imprensa por Gutemberg, o que facilitou o comércio e a memória institucional dos países. Outro fato importante foi a reforma protestante liderada por Martinho Lutero, que só foi possível graças à imprensa inventada décadas anos antes. Tais fatos engendraram uma revolução que durou séculos na Europa e que contribuíram para a revolução industrial inglesa.

Para compreender em maior profundidade o contexto da revolução industrial, temos que levar em conta que, por algum motivo, os europeus aprimoraram técnicas e invenções de outros países, como a China que, séculos antes, já tinha inventado o papel. É importante ter em mente que a revolução inglesa não dependeu exclusivamente de eventos na Inglaterra, pois ela estava dentro de um contexto de desenvolvimento internacional que havia começado há, pelo menos, 200 anos.

Outro fator de peso que tornou possível a revolução industrial na Inglaterra foi que o país era o principal agente do tráfico negreiro, angariando enormes lucros que financiaram a invenção de máquinas e a construção de fábricas. É irônico constatar que a Inglaterra, embora fosse o berço das ideias progressistas, tenha sido, também, a grande empreendedora de uma atividade tão desumana quanto o tráfico de escravos.

Capítulo 9 – Revertendo o desenvolvimento
Nesse capítulo, lemos o trecho que se refere ao processo de escravidão no qual fica claro que a escravidão sempre fez parte da história da humanidade. No livro “A origem da ordem política”, de Francis Fukuyama, que já foi lido e debatido em nossos colóquios, mostra como califados escravizaram mamelucos e caucasianos para trabalhar em seu governo, pois acreditava-se que ter escravos estrangeiros destituídos de direitos como a propriedade e a família teria por consequência mitigar a corrupção. No Brasil pré-colonização, no local que hoje é o Estado do Ceará, a escravização de uma tribo por outra também era comum, assim como em alguns países da África.

Embora a escravidão tenha feito parte da história da humanidade, o tráfico negreiro foi o que obteve maior escala e trouxe consequências devastadoras para os países cuja grande parte da população foi capturada e obrigada a trabalhos forçados em outros países. Uma pergunta que surgiu no grupo foi como seria a África hoje caso não tivesse sofrido o processo de escravidão. Uma vez que alguns de seus países possuíam instituições extrativistas antes da chegada dos europeus, pode-se imaginar que a população local talvez vivesse sua própria revolução gloriosa ou que continuasse no processo de escravizar uns aos outros.

O próximo encontro será no dia 05 de maio, às 17h. Leremos e debateremos os capítulos 10 e 11 do livro.
Local: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo – SP
Valor: gratuito

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