Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

Descida ao inferno

Prelúdio do livro "José e seus Irmãos", de Thomas Mann

21/07/2018

No dia 21 de julho de 2018, os participantes do Colóquio sobre as Instituições se reuniram na Casa Sede dos Círculos de Leitura para lerem e debaterem o prelúdio do livro “José e seus irmãos”, de Thomas Mann. Durante os meses de junho e julho, o grupo se reuniu para ler textos literários antes de iniciarmos em agosto outro livro voltado à política.

Thomas Mann é um célebre autor alemão que ganhou o Nobel em 1929, alguns anos após a publicação de A Montanha Mágica. Marido de uma mulher judia, após a ascensão de Hitler, Mann e sua esposa fugiram da Alemanha para a Suíça, Londres e se estabeleceram durante alguns anos nos Estados Unidos, primeiramente em Princeton e, depois, na Califórnia.

Durante os anos 30, Mann ficou fascinado pela história bíblica de José do Egito, tendo se dedicado durante 10 anos à escrita dos 4 volumes de José e seus irmãos (I – Os contos de Jacó; II – O jovem José; III José no Egito; IV – José, o Provedor).

Na história bíblica, José era o filho favorito de Jacó com Raquel e muito inteligente. Vítima da inveja de seus irmãos, teve sua morte forjada e foi jogado em um poço. Vendido como escravo para uma caravana, José foi levado para trabalhar forçadamente no Egito. Seu novo dono, um eunuco da corte faraônica, era casado com uma bela esposa que se apaixona por José. Não tendo seu amor correspondido, ela o acusa injustamente de roubo e o manda prender. Enquanto estava preso, José passou a interpretar os sonhos dos guardas e acertou em suas previsões. Sua fama chegou até o faraó, que lhe pediu que interpretasse seus sonhos. Por ter acertado o significado deles, José foi promovido a primeiro ministro do Egito, tendo permanecido no cargo por 20 anos.

Nessa época, houve uma grande fome, de forma que Jacó pediu para que seus filhos, inclusive o mais novo, Benjamim, fossem a outras regiões atrás de comida. Os irmãos chegaram ao Egito. Sem saberem da situação de José, os irmãos ganharam grãos para voltarem a suas terras, sob a condição de que Benjamim ficasse com José.

É interessante ressaltar que o último volume do livro – que retrata esse reencontro de José e seus irmãos – é, também, uma referência à história americana dos anos 30. Mann era fascinado por Franklin Roosevelt, o presidente responsável por levantar o povo da depressão após a crise de 1929. Mann via Roosevelt como José, um grande provedor, que providenciou empregos para a população à custa do endividamento do Estado.

Ao iniciarmos a leitura do Prelúdio, é evidente que Mann faz muitas referências bíblicas, misturando-as com a ficção que constrói. O começo do texto é bastante centrado na figura de Abraão, que sai da Mesopotâmia e chega à cidade de Ur, próxima ao Egito. Ele é um homem que se coloca a caminho, na procura por pessoas que, assim como ele, acreditam em um Deus único. Esse Deus como abstração, sem aparência física, representa um grande salto da imaginação humana. Abraão, movido pela fé, está em busca de algo eterno na transitoriedade da vida.

Ao longo da leitura, há referências à mitologia egípcia, em especial aos deuses Isis e Osíris. Em A Flauta Mágica, Mozart compõe um coro sobre esses deuses, adorados pelos maçons.

Em seus questionamentos, o escritor instiga-nos a pensar no que consiste e de onde surgiu a civilização. O poder da curiosidade é celebrado por Mann como uma capacidade que impele a humanidade a buscar respostas sobre sua origem. Nesse prelúdio, Mann questiona a origem da humanidade em seus vários sentidos, inclusive a própria língua.

Na parte 4 do prelúdio, lê-se o trecho: “Existiu uma língua-mãe ainda mais antiga que continha as raízes das línguas arianas, bem como as das semíticas e camíticas. Provavelmente foi falada na Atlântida — região que é o último, o mais afastado e apagado bastidor ainda vagamente visível aos nossos olhos, mas que mal pode ser tida como a pátria de origem do homem que fala.” Este trecho faz clara referência às línguas originárias de Noé: as línguas arianas, semíticas e camíticas.

O Jardim do Este citado no prelúdio trata-se, na verdade, do Jardim do Éden que, atualmente, estaria localizado no que hoje conhecemos por Iraque.

A leitura traz à tona um sincretismo de mitos dos mais diversos povos em busca de encontrar a origem da humanidade. Joseph Campbell, em sua obra O herói de mil faces, também elabora um estudo sobre mitologia comparada. Regiões geográficas diferentes possuem histórias e mitos em comum. A ciência e as descobertas que a humanidade foram realizando ao longo dos séculos a desperta ainda mais para o mistério.

Uma outra versão de Adão nos é apresentada por Mann. No Oriente, Adão não possuía dívidas com Deus. Em seu Isto És Tu: Redimensionando a Metáfora Religiosa, Campbell apresenta-nos como no Oriente, diferentemente do Ocidente, o homem não se separa de Deus. Uma outra versão da história de Adão mostra um ser dual, com trevas e luz coabitando em si ao mesmo tempo. Porém, assim como o mito de Narciso, ele se apaixona pela sua própria imagem, “desceu até ela e assim caiu na servidão da natureza inferior”

Adão e Eva foram expulsos do Paraíso por cometerem um pecado. No Paraíso havia regras, e eles as quebraram. A saída deles do Paraíso se compara à saída do bebê do útero. A religião (religare) seria uma maneira de reconectar o homem ao divino. No entanto, vale ressaltar que ficar no útero/paraíso pode trazer consequências negativas, como uma eterna dependência e um medo do mundo.

A própria ideia de pecado passa a ser questionada. O que seria o pecado para outras culturas? Pensamos que, para o Ocidente, o pecado refere-se a um erro para com Deus, enquanto no Oriente, é um erro para com seus antepassados. O pecado, de certa forma, regulava o comportamento humano, como uma lei pré-existente antes do sistema de justiça e leis modernas.

Outra reflexão do grupo foi que, geralmente, cada família ou grupo social produz apenas um único ser humano excepcional, de forma que a religião cuida daqueles que não o são.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 04 de agosto de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão dos primeiros capítulos de “A riqueza das nações”, de Adam Smith (mais informações aqui).
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

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