Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

A Riqueza das Nações – Adam Smith

No dia 18 de agosto de 2018, o Instituto Braudel promoveu o segundo encontro para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, capítulos 4 e 5 do livro 1.

18/08/2018

O dinheiro e as moedas virtuais
Ao retratar o processo que deu início à invenção da moeda, Smith reforça como o Estado precisou intervir para manter o padrão das moedas, aferindo a credibilidade necessária para que a população usasse as moedas com segurança, garantindo seu valor de troca sem a necessidade de aferir se os materiais eram puros e se o peso era o que se dizia ser.

Com o passar dos séculos, o dinheiro foi evoluindo e mudando. Atualmente, o mundo acompanha a euforia das criptomoedas (dentre as quais a mais conhecida é a bitcoin), que passam ao largo da regulamentação e supervisão do Estado. É interessante constatar que, apesar de sua altíssima volatilidade, o que ainda as tornam inviáveis como instrumento de troca cotidiana, comparando-as a algumas moedas reais como o bolívar venezuelano ou a lira turca, por exemplo, as criptomoedas podem ser mostrar menos inseguras.

Matérias recentes veiculadas pela mídia mostram que hoje há mais pessoas investindo em moedas virtuais do que na bolsa de valores: um fato que gera surpresa, por ser algo tão recente cujos fundamentos não são tão amplamente conhecidos como os do mercado de capitais. A possibilidade de ganhos rápidos e fáceis aliada à ganância sempre leva um grande número de pessoas a se arriscar nesse tipo de novidade.

Entretanto, a migração para as criptomoedas tem sido com o objetivo de buscar retorno sobre um investimento e não para troca cotidiana, o que aponta para o risco de que, quando atingirem certa escala, os preços estabilizarão e podem levar a uma corrida para a realização de lucros, inviabilizando-a como moeda.

Na época de Smith, a população rural ainda não usava muito o dinheiro e a padronização de moedas ainda era precária, com vários tipos delas em circulação. Países como Inglaterra e França foram uns dos primeiros a ter uma moeda única respaldada pelo Estado, iniciando um processo no qual a moeda passa a dominar a Economia. Vale lembrar que a moeda estabilizada é um dos grandes pilares da civilização moderna.

Novidades que geram empolgação e levam milhares de pessoas a investirem e se arriscarem há muito tempo fazem parte da história econômica do mundo. A recente empolgação em torno das moedas virtuais lembra a grande especulação de tulipas na Holanda do século XVIII. De acordo com João Paulo Caldeira, “no início do século XVII tulipas se tornaram um símbolo de status na Holanda e isso fez com que seus preços começassem a subir. Quanto mais rara a tulipa, mais valiosa ela era considerada. Especuladores logo perceberam que podiam lucrar com essa mania e passaram a comprar bulbos para revendê-los a preços ainda mais caros. A mania por tulipas era tão grande que os preços chegaram a aumentar 20 vezes em um único mês. As plantas eram consideradas tão valiosas que muita gente dava todos os seus bens em troca de um simples bulbo, que poderia custar dinheiro o suficiente para sustentar por meses toda a tripulação de um navio.” Qualquer semelhança com as moedas virtuais não é mera coincidência. Assim como ocorreu com as tulipas do século XVIII e com a crise oriunda da bolha imobiliária do século XXI, a bolha das criptomoedas pode estourar a qualquer momento, pois não há lastro nem regulamentação.

Esses surtos de irracionalidade que eventualmente atingem as pessoas são comuns. O livro “Manias, pânico e crashes: um histórico das crises financeiras”, de Kindleberger e Aliber, ilustra um pouco dessa irracionalidade: os autores mostram de que maneira manias geram pânicos, que por sua vez originam crises, colocando a turbulência do mundo financeiro em perspectiva. Adam Smith, em sua obra, quis dar alguma racionalidade à Economia.

Inflação no Brasil
Após a invenção da cédula, o jogo muda e inflação e instabilidade passam a fazer parte dos ciclos econômicos. Quando o governo tira parte do metal de suas moedas em circulação para pagar suas próprias dívidas, mantendo o mesmo valor de compra das moedas ao passo que reduz seu valor intrínseco, inicia-se o processo que hoje conhecemos por inflação. A diferença é que, atualmente, o governo não tira metais das moedas, podendo optar por fabricar mais dinheiro, em descompasso com a geração de riqueza do país. A perda de confiança na moeda leva à perda de toda a estrutura econômica do país.

A hiperinflação dos anos 80 e 90 no Brasil é um marco na história do país que traumatizou toda uma geração e até hoje provoca repercussões em nossas decisões econômicas. A crise começou ainda no governo de Juscelino Kubistchek. Embora sejam notáveis os avanços promovidos pelo presidente na industrialização do país, não se pode ignorar a irresponsabilidade com despesas exorbitantes, o que posteriormente gerou muita inflação. Juscelino não preparou uma liderança para assumir seu lugar e solucionar os problemas por ele criado, optando por insistir em se reeleger em 1964.

Após o golpe de 64, a orientação econômica do país passou a ser dada pelos ministros Roberto Campos (Planejamento) e Otávio Bulhões (Fazenda), com a política da indexação, um sistema de reajuste de preços de acordo com índices oficiais de variação dos preços. Tal medida manteve a população mais tranquila por um tempo. Porém, tal calmaria não durou muito tempo e outros fatores vieram a agravar a situação: os altos níveis de gastos de Geisel, oferecendo muito crédito; a crise do petróleo e a decisão do governo brasileiro em comprar petróleo para sustentar a economia; e a crise mexicana de 1982.

O Brasil não sucumbiu imediatamente a estas pressões, mas logo caiu em moratória. Assim, o governo começou a imprimir dinheiro para atender as demandas da população. A hiperinflação chegou ao pico, com aumento de preços de cerca de 50% ao mês. A situação só começou a se normalizar com a criação da nova moeda, o real, na década de 90.

O preço real e o preço nominal das mercadorias
Definir o valor de determinada mercadoria pode se mostrar mais complicado do que se pensa. Adam Smith acena para uma solução ao associar o valor de um produto ao tanto de trabalho que foi empregado para fabricá-lo. Seguindo essa lógica, quanto mais trabalho tivesse sido empregado na produção de uma mercadoria, mais valiosa ela seria. Compreende-se que Smith estava em plena era industrial, vivendo em um mundo mais simples onde sua teoria era factível; no entanto, na era dos softwares e da inteligência artificial, como determinar o valor de um produto? Como “precificar” o trabalho intelectual? E os trabalhos criativos, como determinar o valor deles a partir do trabalho empregado?

Smith mostra de maneira clara como usar outros elementos como cereal e prata como moeda de troca encontra diversos empecilhos, dentre eles o desgaste natural da moeda e a flutuação da safra de cereais. Assim, para Smith, o trabalho era a medida universal que determinaria o valor das mercadorias.

Mais à frente, o autor defende que o valor do dinheiro não seja fixado pelo Estado, mas pelo mercado, a “mão invisível”. Nasciam aí as primeiras teorias sobre câmbio flutuante.

A dinâmica da Economia desafia diversos postulados. Um exemplo disso é o quanto estamos habituados a associar a desvalorização da moeda como algo ruim para a economia. No entanto, essa estratégia foi e continua sendo utilizada por muitos governos, desde Roosevelt na década de 30 até a China de agora, justamente para salvar ou impulsionar sua atividade econômica.

Outro postulado que caiu por terra é o ouro, cujo valor vem se mostrando muito instável nas últimas décadas. O padrão dólar-ouro, criado após a 2ª Guerra Mundial na Conferência de Bretton Woods, manteve-se como sinônimo de estabilidade por um tempo, mas na década de 70 o presidente Richard Nixon toma a decisão de acabar com a paridade dólar-ouro.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 01 de setembro de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão de trechos dos capítulos 6 e 7 do Livro 1 de “A riqueza das nações”. Edição Nova Fronteira: Coleção Clássicos de Ouro.
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

Endereço e
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