Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

Colóquio sobre as Institutições: resumo do livro "A Riqueza das Nações," de Adam Smith

Em 15 de setembro de 2018, o Instituto Braudel promoveu o quarto encontro para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, capítulos 8 e 9 do livro 1.

15/09/2018

Para uma maior compreensão da obra prima de Adam Smith, é importante levar em consideração alguns aspectos de sua época, o século XVIII. Este foi um século de muitas guerras, mas, também, de uma grande consolidação de conhecimentos e de acumulação de riquezas. É interessante comparar Smith a outras figuras importantes do século XVIII, como Mozart e Bach, e constatar que todos eles fizeram importantes contribuições à história da humanidade vindo de origens relativamente simples. Outro exemplo notório é o de Abraham Lincoln, nascido na cabana de uma fazenda em Kentucky e que se tornou um dos presidentes mais importantes dos Estados Unidos graças a seus próprios esforços. Isso nos mostra que o progresso humano geralmente vem de pessoas pertencentes às camadas mais baixas da população, não necessariamente da elite e da nobreza de um país.

Densidade populacional e geração de riquezas
No capítulo 8, Adam Smith se dedica a introduzir alguns conceitos demográficos que utilizamos até hoje, fazendo um paralelo entre população e renda. Tomando como exemplo os Estados Unidos, Smith afirma que, no século XVIII, quanto mais filhos uma família tivesse, mais próspera ela seria, pois, os filhos eram usados como força de trabalho e, consequentemente, ajudariam a gerar mais riqueza para a família. Assim, apenas as “madames” poderiam se dar ao luxo de ter um ou dois filhos, pois não precisavam que suas crias trabalhassem para o sustento da família.

Mesmo constatando que o conceito de que uma grande população poderia gerar mais riquezas para um país, Smith sabia que essa não era uma regra válida para todo o mundo. Um exemplo era a China que, mesmo com uma altíssima densidade populacional, não era capaz de gerar riquezas, tendo a maior parte de sua população vivendo na miséria.

É interessante observar como essa lógica populacional de “mais filhos geram mais riqueza” se inverteu especialmente no século XXI. Pesquisas recentes mostram que as brasileiras estão optando por ter cada vez menos filhos e quanto maior o nível de escolaridade e maior a renda, a tendência é ter menos filhos . Em algumas famílias, a queda do número de filhos é drástica, passando de 10, 15 filhos na geração dos avós para 1 ou 2 filhos nas gerações dos netos. Ao contrário do que ocorria na época de Adam Smith, atualmente ter mais filhos significa maiores custos, posto que graças às leis que proíbem o trabalho infantil, crianças não podem trabalhar. Assim, por conta dos altos custos de vida, da urbanização e do amplo acesso a métodos contraceptivos, as famílias estão tendo cada vez menos filhos.

O mesmo ocorre em países desenvolvidos nos quais é cada vez mais difícil encontrar famílias numerosas. Cada país lida com esse fenômeno de uma maneira: enquanto países como a Alemanha e Canadá chegam a estimular a entrada de imigrantes para suprir a mão de obra que falta no país, outros países, como a Inglaterra, que durante muito tempo estimulou a entrada de imigrantes, hoje dificultam a entrada dos mesmos.

Apesar das famílias numerosas do século XVIII, Smith reconhece que havia altas taxas de mortalidade infantil e poucas famílias conseguiam fazer com que todos os seus filhos vingassem. Ele chega a exemplificar que, por vezes, em uma família com 20 filhos, apenas 2 sobreviviam e chegavam à idade adulta. Alguns teóricos da época viam a mortalidade infantil como algo positivo, pois impedia um grande inchaço populacional. Um teórico muito famoso dessa corrente foi Thomas Malthus, o pai da demografia, famoso por sua teoria para controle do aumento populacional. Preocupado com o crescimento populacional acelerado, Malthus publicou, anonimamente, em 1798, An Essay on the Principle of Population, obra em que expõe suas ideias e preocupações acerca do crescimento da população do planeta. Malthus alertava que a população crescia em progressão geométrica, enquanto que a produção de alimentos crescia em progressão aritmética. No limite, isso acarretaria uma drástica escassez de alimentos e, como consequência, a fome. Portanto, inevitavelmente o crescimento populacional deveria ser controlado. O problema do crescimento populacional em desproporção à capacidade de produzir alimentos ainda persiste, particularmente no continente africano e nos países do Oriente Médio. Smith, por sua vez, como bom observador, tinha outro ponto de vista sobre a questão, mostrando que uma maior população poderia trazer benefícios econômicos para o país. No Brasil, reduziu-se muito a mortalidade infantil, principalmente graças à invenção e disseminação de vacinas que chegaram a erradicar algumas doenças. Assim, é preocupante observar que em alguns países, inclusive no Brasil e nos Estados Unidos, as taxas de vacinação estão decaindo, por questões que vão desde crenças ideológicas até negligência familiar.

Se no século XVIII havia altos índices de mortalidade infantil, o século XX contou com altos índices de mortalidade adulta na União Soviética e outros países do leste europeu. Os motivos de tais índices incluíam as precárias condições de trabalho e suicídios.

Atualmente, alguns países vivem o fenômeno de contarem com uma população muito numerosa e não haver trabalho para todo mundo. Um exemplo disso é o norte da Inglaterra, que conta com uma população não ativa economicamente e que vive dos benefícios do governo. Assim, como determinar a quantidade exata de pessoas da qual um país precisa para se desenvolver?

Em sua obra, Smith se preocupa em descrever como se gera a riqueza e a densidade populacional é um fator importante nessa equação. Atualmente, porém, o problema não está na geração de riquezas, mas, sim, na sua distribuição desigual.

Oferta e demanda no mercado de trabalho
Outro ponto abordado por Smith são os malefícios do trabalho em excesso; trabalhar muitas horas não significa, necessariamente, ser produtivo. Muitos anos depois empresas consideradas modernas, especialmente na área de tecnologia, adotam essa mesma premissa, oferecendo a seus funcionários flexibilidade e redução na jornada de trabalho em prol de uma maior criatividade e produtividade que alavanquem seus ganhos. A lei da oferta e da demanda, explicada e exemplificada no capítulo 7, é utilizada aqui para explicar, também, tanto a densidade populacional quanto o porquê de alguns salários serem maiores do que outros. Assim, o que determina o salário é a demanda por determinado tipo de trabalho e a oferta que existe no mercado de profissionais qualificados.

É interessante observar, nesse sentido, como é o equilíbrio entre oferta e demanda de terminada área profissional em uma localidade. Em alguns municípios do Ceará, por exemplo, as escolas profissionalizantes se concentram em oferecer cursos técnicos em áreas que estejam alinhadas às atividades econômicas do local; assim, por exemplo, em municípios onde há fábricas voltadas à confecção de produtos em cerâmica, as escolas oferecem cursos nessa área. Caso as escolas oferecessem cursos na área de zootecnia, por exemplo, haveria o risco de se formar um grande contingente que ficaria desempregado. No entanto, isso levanta o questionamento de como o local pode se desenvolver para além de suas atividades econômicas tradicionais se fica preso nesse ciclo da oferta e da demanda.

Um exemplo interessante de quebra de ciclo ocorreu em São José dos Campos com a criação da Embraer, uma empresa estatal. A empresa de aviação criou toda uma cadeia envolvendo fornecedores, gerando muitos empregos na região em diversas áreas, saindo da dependência da cultura cafeicultora. Este é um exemplo de como é possível desenvolver a economia local a partir de outros insumos, quebrando a lógica de só formar profissionais para um mercado que já existe.

A Holanda e o comércio mundial
Por fim, o capítulo 9 dedica alguns trechos a explorar a Holanda, país mundialmente conhecido por sua tradicional capacidade de comercialização. A Holanda sempre foi uma exceção à Europa, conhecida por sua agressividade e tendência à exploração em locais estratégicos, inclusive no nordeste brasileiro. A Holanda foi e continua sendo um país pioneiro em questões econômicas, políticas e sociais; é um exemplo de progresso, civilização e de um capitalismo que trouxe ganhos para grande parte de sua população.

A Holanda é conhecida por sua alta qualidade de vida e uma economia muito forte, tendo desempenhado um papel muito importante na economia europeia durante muitos séculos. Desde o século XVI, o transporte, a pesca, o comércio e os bancos têm sido importantes setores da economia do país. É importante destacar que o país criou a Companhia Holandesa das Índias Orientais, com o objetivo de excluir os competidores europeus de uma importante rota comercial. Após o Brexit, Amsterdã vem sendo cotada para ser o novo centro financeiro europeu, desbancando o lugar de Londres, posto que a saída da Inglaterra da União Europeia pode dificultar as transações financeiras do país.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 6 de outubro de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão de trechos do capítulo 11 do Livro 1 de "A riqueza das nações". Edição Nova Fronteira: Coleção Clássicos de Ouro.

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