Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

Colóquio sobre as Institutições: resumo do livro "A Riqueza das Nações," de Adam Smith

No dia 06 de outubro de 2018, o Instituto Braudel promoveu o segundo encontro para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, capítulo 11 do livro 1.

06/10/2018

A renda da terra e a produtividade
O capítulo 11 é dedicado, em grande parte, a explicar a terra que dá renda sempre e a que dá renda esporadicamente. Smith apresenta como, mesmo nos casos de terras que não são rentáveis o ano todo, com produtos sazonais, o ser humano criou estratégias para que sua renda não ficasse única e exclusivamente dependente da produtividade da terra. Nesse ponto, Smith mostra a importância da flexibilidade e de estratégias comerciais. Mesmo quando não gera renda, a terra ainda é considerada como fator de produção.

Atualmente, a terra como fator de produção encontra um paralelo nas cidades grandes nos centros de distribuição. É comum vermos empresas alugarem grandes galpões para suas atividades de logística e, quando o espaço não é utilizado por completo, elas sublocam espaços nesses galpões, a fim de garantir renda no mesmo local, mas por meio de outras utilidades.

Outro ponto de discussão interessante foi a produtividade da terra e das pessoas. Hoje o mundo assiste a um gradual decréscimo do fator humano como mão de obra e empresas demitem funcionários em massa com a justificativa de que um grande quadro de funcionários não resulta em maior produtividade. O século XXI vem nos mostrando, dia após dia, que mais funcionários não significa, necessariamente, maior produtividade, destacando a tecnologia como aliada imprescindível para maior produtividade e para alavancar os lucros.

Ao longo dos encontros, o desemprego tem sido um tema bastante decorrente, principalmente em função do desenvolvimento de novas tecnologias e do despreparo de países em formar mão de obra qualificada. Para enfrentar essa questão do desemprego, alguns países vêm adotando diferentes estratégias. Nesse contexto, vale mencionar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já defendeu em diversas ocasiões retirar fábricas americanas de países como a China, usando a justificativa de que, ao colocar essas fábricas em solo americano, haverá mais empregos no país. No entanto, trazer essas fábricas para os Estados Unidos vai encarecer o processo de produção, uma vez que os americanos certamente não estarão dispostos a trabalhar pelos mesmos baixíssimos salários dos chineses, indonésios, indianos etc. Assim, o país pode perder a competitividade em mercados no qual já tem bastante força e poder, como no setor de tecnologia.

Questões de infraestrutura
Mais à frente, Smith afirma que, sem estradas de qualidade, muitos produtores de terra não conseguem comercializar seus produtos, o que dá oportunidades à criação de monopólios, pois só aqueles que possuam estradas de qualidade que vão de suas propriedades até os grandes centros comerciais poderão oferecer seus produtos e, consequentemente, colocar os preços que lhes sejam convenientes. Smith insiste em vários pontos do livro o quanto o monopólio é prejudicial para o livre mercado e o mesmo se aplica à produção e comercialização de alimentos.

Ainda hoje, séculos depois, países como o Brasil enfrentam problemas em escoar sua produção agrícola por conta da péssima infraestrutura. O país investe apenas 1% de seu PIB em infraestrutura (sem descontar os desvios que ocorrem no processo) e os custos de transporte são muito altos para escoar a mercadoria . Tal ambiente é muito propício ao monopólio, pois grandes produtores conseguem pressionar políticos para a construção e/ou asfaltamento de estradas ou contratam serviços particulares, inviabilizando a possibilidade de comércio de outros produtores que não contam com esses artífices de poder e dinheiro. O fato é que uma melhor infraestrutura geraria mais produção e comércio, o que impactaria positivamente a economia do país que já tem grande potencial agrícola.

Alimentação, habitação e vestuário
Em outro trecho, Smith fala que, depois da alimentação, a habitação e o vestuário são as grandes necessidades humanas. Assim, uma terra que, além de produzir alimentos, ofereça a possibilidade de habitação, possui maior valor agregado quando comparada àquela que produz apenas alimentos. Ao longo desses encontros, sempre discutimos como Smith se propôs a colocar alguma racionalidade na economia. Porém, quando o assunto é a produção de alimentos, alguns conceitos parecem ainda escapar ao raciocínio lógico. Ele exemplifica que, embora a regra geral seja comercializar o excedente após a satisfação das próprias necessidades, em alguns casos há desperdícios de produtos porque, em termos de custos, não vale a pena comercializar o excedente.

Um caso exemplar no Brasil é a produção de caju e castanha, o que gera muito desperdício de ambos os lados e há, aparentemente, falta de acordos comerciais entre esses produtores. Essa é uma falha de mercado, que não consegue absorver toda a oferta de castanha ou caju, gerando desperdício que é ainda mais agravante quando se considera que o Brasil ainda não possui políticas fortes em gestão de resíduos. Seria papel do Estado, então, coordenar tais produções para garantir melhores acordos comerciais a fim de minimizar o desperdício de produção?

Ainda sobre o tema de alimentação, Smith afirma que classes sociais mais altas não têm necessidade fisiológica de comer muito mais do que as classes mais baixas; o que diferencia, nesse caso, é a qualidade desse alimento, pois aqueles que pertencem às classes mais altas podem consumir alimentos de melhor qualidade e com mais variedade, diferente dos pobres que, por vezes, têm uma alimentação restrita a produtos de baixa qualidade. Por outro lado, quando o assunto é vestimenta e habitação, o céu é o limite para as classes mais abastadas, que podem consumir esses itens em maior quantidade e qualidade.

Outro ponto importante destacado por Smith é a alimentação como riqueza absoluta e os metais preciosos, outro produto da terra, como riqueza relativa. Assim, para o autor, a alimentação possui uma importância universal, posto que todo ser humano precisa comer para ter energia para realizar suas atividades. Por outro lado, os metais preciosos podem ou não ter importância, dependendo do valor que lhes é atribuído em determinada sociedade. Para ilustrar essa teoria, Smith dá um exemplo certeiro: quando os espanhóis chegaram nas ilhas de Cuba e Santo Domingo, conseguiram facilmente trocar os alimentos que traziam consigo por prata e ouro, pois a população desses locais tinha grandes dificuldades em conseguir comida e não tinha atribuído grandes valores aos metais preciosos que não lhe eram muito úteis. Assim, enquanto a comida era importante tanto para espanhóis quanto para cubanos e dominicanos, os metais preciosos tinham valor relativo, pois eram de grande importância apenas para os espanhóis.

Ainda sobre o tema alimentação, recentemente a Cepal - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe - divulgou um relatório explicitando que o desenvolvimento de novas tecnologias tem as tornado cada vez mais caras, enquanto produtos da terra como a soja vem se tornando paulatinamente mais baratas no mercado mundial. Um exemplo é o próprio Iphone, que hoje tem modelos comercializados a 10 mil reais, enquanto sacas de soja vêm perdendo preço no mercado. Evidentemente, isso coloca o Brasil em desvantagem uma vez que o país é um dos líderes mundiais na produção e comercialização de commodities, enquanto negligencia investimentos no desenvolvimento de tecnologias.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 20 de outubro de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão de trechos do livro 2 e capítulo 1 do livro 3 de “A riqueza das nações”. Edição Nova Fronteira: Coleção Clássicos de Ouro.

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