Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

A Riqueza das Nações – Adam Smith

Resumo dos capítulos 1, 2 e 3 do primeiro livro

04/08/2018

No dia 4 de agosto de 2018, o Instituto Braudel promoveu o primeiro encontro para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. O grupo reunido contou com membros que já acompanham o Colóquio sobre as Instituições desde 2016 e outros que participaram da atividade pela primeira vez.

Antes de damos início à leitura, Norman Gall, diretor executivo do Instituto Braudel, apresentou alguns aspectos da biografia de Adam Smith. Vivendo em uma época na qual o termo economia sequer existia (isso só vai acontecer 100 anos após sua morte), Adam Smith era filósofo, nascido em uma aldeia ao norte da Escócia. Seus estudos universitários iniciaram na University of Edinburgh. Depois, Adam Smith passou uma temporada na University of Oxford. Achando a universidade inglesa muito fraca e frívola, voltou a Edimburgo para terminar seus estudos. Passou o resto de sua vida morando numa pequena fazenda com sua mãe. Smith tinha um currículo simples, mas grande curiosidade intelectual, boa memória e imaginação.

Diante de temas recorrentes como imigração e estagnação demográfica, Adam Smith continua relevante e atual no século XXI. Com baixo crescimento demográfico, consumo alto e falta de investimentos públicos, a sociedade moderna enfrenta demandas cada dia mais crescentes da população. Dentre os principais temas presentes em sua obra, destacam-se o desenvolvimento da sociedade complexa e a defesa do pobre; o mistério da cooperação humana; e a impossibilidade de haver distribuição de riqueza sem uma sociedade complexa com mão de obra especializada.

Peter Drucker, pioneiro nos estudos da administração moderna dos negócios, retoma o conceito de Smith sobre a especialização da mão de obra séculos depois. Atualmente, presenciamos uma alta demanda por mão de obra mais técnica, e a figura do operário que aperta parafusos vai perdendo seu lugar.

Livro 1 – Capítulo 1 – Da divisão do trabalho
Smith inicia o capítulo falando sobre o funcionamento da divisão do trabalho e suas vantagens, como maior destreza para o operário e maior produtividade. Usando o clássico exemplo do alfinete, Smith demonstra como a produtividade aumenta quando cada um fica responsável por uma parte da peça, ao invés ter que fazer uma peça inteira.

Essa divisão do trabalho ainda não ocorria na agricultura, pois o ritmo e as necessidades eram outras. No entanto, nos dias atuais e no Brasil, a agricultura já se encontra bastante especializada e capitalizada, com empresas e mão de obra diferentes para a fabricação de adubos, maquinário etc. A falta de investimentos públicos tem impacto direto nas falhas logísticas, impedindo que uma grande parte da produção seja escoada e exportada. Nas pequenas produções e agriculturas familiares, ainda não há muita especialização, de forma que é comum que uma mesma pessoa executa tarefas diversas.

Segundo Adam Smith, quanto maior a especialização de uma sociedade, maior será seu conhecimento e, consequentemente, sua riqueza. Assim, há uma relação direta entre especialização e riqueza. É interessante comparar os escritos de Smith com a sociedade grega retratada na Odisseia de Homero, na qual os reis das ilhas viviam em muito luxo. Esse luxo, porém, era resultado de saques de guerras, e não da produção do país. A título de curiosidade, o termo economia vem do grego oikos (casa) e nomos (costume ou lei).

Em outro trecho do capítulo, vimos que a agricultura de países como França e Inglaterra é mais evoluída que a de outros países europeus, como Polônia e Rússia. Além do clima, há outros fatores que explicariam a superioridade francesa e inglesa na agricultura: Polônia e Rússia estão à margem do continente, enquanto França e Inglaterra possuem maior livre comércio e capacidade de cooperação. O exemplo da Polônia e da Rússia – países que, embora tivessem boa produção, não eram tão competitivos quanto França e Inglaterra – mostra que produzir não é o suficiente; é preciso saber comercializar, e, nesse ponto, a Holanda é um país que saiu na frente.

A questão das migrações ainda é bastante presente atualmente. Países como Holanda, Inglaterra e Estados Unidos são países ricos que atraíram e continuam atraindo imigrantes. Esses imigrantes aportam muito aos países, trabalham duro e contribuem para o crescimento da economia.

Smith é um observador agudo, que consegue descrever suscintamente e de maneira clara um processo de produção.

A divisão do trabalho descrita por Smith está sofrendo muitas mudanças, dentro da grande crise do capitalismo. Uma vez que se tenham operários muito especializados e excelentes em fazer determinada tarefa, é de se questionar o que aconteceria com essas pessoas quando as máquinas chegassem e fizessem seu trabalho de forma mais rápida, econômica e produtiva. Já tivemos uma prévia do que aconteceria ainda no século XIX, pouco após a morte de Adam Smith, quando operários ingleses passaram a destruir as máquinas que, segundo eles, roubaram seus postos de trabalho. Eventualmente, o problema foi contornado e homem e máquina passaram a trabalhar juntos. Porém, com o rápido avanço da tecnologia, fica o questionamento de até quando tal parceria será possível.

Smith afirma que quando o homem pode se concentrar em uma única tarefa, ele acha meios de fazê-la de forma mais rápida e eficiente, chegando a inventar e melhorar máquinas. Ainda hoje muitas fábricas incentivam seus trabalhadores a criarem procedimentos que agilizem o trabalho, premiando as melhores ideias.

Uma vez que máquinas estejam substituindo, cada vez mais, o trabalho manual, como as empresas lidam com quem sobra? É responsabilidade da empresa realocar aqueles que não serão mais necessários em determinado setor? As empresas necessitam cada vez mais de bons técnicos, enquanto o grosso da produção manual é deslocado para países da Ásia e África, com mão de obra barata. Isso gerou muito desemprego em países como os Estados Unidos, o que pode explicar, inclusive, a eleição de Donald Trump e suas promessas de emprego e de resgatar a América para os americanos.

Montadoras do ABC paulista passam por algo parecido: demissões em massa são comuns e os desempregados não conseguem se realocar no setor produtivo, passando, muitas vezes, para setores de serviços, onde encontram empregos informais.

O recente investimento em universidades públicas na região do ABC não surtiu o efeito esperado de produzir cérebros para as grandes empresas, pois muitos recém-graduados estão deixando o país. Contrariando as premissas de Smith, nas quais uma produção especializada traria ganhos para todo o país, os jovens cérebros usufruem de uma boa formação em terras brasileiras para migrarem para países desenvolvidos, gerando riquezas apenas para eles mesmos.

Joseph Schumpeter, célebre economista austríaco, afirmaria anos depois de Smith que "A proeza do capitalismo não consiste tipicamente em fornecer mais meias de seda às rainhas, mas em colocá-las ao alcance das moças das fábricas em troca de quantidades de esforço decrescentes". Hoje em dia, produz-se muito mais que o necessário. Porém, a quantidade de máquinas não diminuiu, necessariamente, a quantidade de horas trabalhadas. Embora a qualidade de vida tenha melhorado para a população em geral, muitas pessoas ainda enfrentam longas e exaustivas jornadas de trabalho.

Na contramão da especialização de Smith, vemos hoje um acúmulo de funções, desde o motorista de ônibus que também é cobrador até o repórter que hoje é também fotógrafo, redator e editor de notícia. Tal acúmulo gera, de um lado, custos menores para empresas e, de outro, uma má qualidade no trabalho, o que já pode ser verificado em diversos veículos de comunicação no caso dos jornalistas.

Livro 1 – Capítulo 2 – Do princípio que dá ocasião à divisão do trabalho
Smith afirma que a capacidade de troca e a cooperação são inerentes ao ser humano, não estando presente no reino animal. Tal perspectiva é refutável, pois há evidências que formigas e vespas, por exemplo, sabem trabalhar em equipe. Desse modo, a cooperação humana não é a única que existe, mas, sim, a mais desenvolvida se comparada a outros animais.

Ainda sobre as trocas, Smith diz que os seres humanos trocam não por benevolência, mas, sim porque precisam de artigos e serviços que outros oferecem. A exceção é a do mendigo, que depende da benevolência humana e, a princípio, nada teria para oferecer em troca. Ao observar o comportamento humano para descrever conceitos que, posteriormente, se tornariam os pilares da economia, Adam Smith mostra ser um verdadeiro antropólogo.

O tema das trocas leva ao tema do parasitismo, uma vez que nem sempre as trocas entre pessoas e instituições são justas e geram ganhos para ambos os lados. Um exemplo é a prefeitura de uma cidade que oferece incentivos fiscais para que uma empresa estabeleça unidades fabris em seu território e, uma vez que o incentivo acabe, a empresa frequentemente muda de cidade, deixando muitos desempregados para trás.

Livro 1 – Capítulo 3 – Que a divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado
O tema central do capítulo é de como as nações que exploraram a navegação saíram na frente na conquista de novos territórios, o que trouxe desenvolvimento, acúmulo de capital e qualidade de vida para seus povos.

Ainda quando o grupo se reunia para ler e discutir “Por que as nações fracassam”, no primeiro semestre de 2018, surgiu o questionamento de por que países europeus saíram para a navegação e outros não. Mesmo com suspeitas de que os chineses teriam chegado à América antes de Colombo, o fato é que a China não levou a ideia adiante, ficando concentrada em seu próprio território e no de países vizinhos. Dentre as diversas explicações, haveria o fato de países como a China não sentirem a necessidade de produtos que os europeus almejavam, o que fez com que não saíssem ao mar para buscar essas mercadorias.

Nesse ponto, é inevitável não pensar em todo o processo de colonização, seus ganhos e suas perdas. Podem ser evidentes os benefícios do processo para os países colonizadores; porém, as perdas de vida e de recursos naturais são imensuráveis, sendo difícil determinar qual foi o saldo do processo.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 18 de agosto de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão de trechos dos capítulos 4, 5, 6 e 7 do Livro 1 de "A riqueza das nações". Edição Nova Fronteira: Coleção Clássicos de Ouro.
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

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