Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial - Associado à FAAP

A Riqueza das Nações – Adam Smith

Em 01 de setembro de 2018, o Instituto Braudel promoveu o terceiro encontro para leitura e discussão do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, capítulos 6 e 7 do livro 1.

05/09/2018

Precificação e geração de riqueza
Adam Smith dedica parte de sua obra para explicar como se precificam as mercadorias. Para o autor, a precificação é composta de três elementos: a renda, o lucro e o trabalho.

Trabalho, lucro e renda, potencializados por um sistema de comércio, são apontados como fatores que promovem a geração de riquezas para os países. A geração de riqueza teve muito dinamismo após o Iluminismo e, especialmente, após a Revolução Industrial. Foi a partir do século XVIII, também, que se intensificou o movimento de globalização, o que fez com que o comércio se intensificasse e a riqueza gerada circulasse entre outros países.

É evidente que toda essa riqueza não foi distribuída igualmente. Smith, em algumas passagens mais sutis de sua obra mostra estar consciente desta concentração, inclusive com o papel da renda e dos monopólios neste fenômeno. Todavia, o objeto de sua teoria foi o estudo da geração de riqueza, e não de sua distribuição. A distribuição de riquezas será o grande mote de Karl Marx no século seguinte ao de Adam Smith, culminando nas teorias do Socialismo.

Estado e mercado livre
Adam Smith ficou muito famoso por ser o primeiro teórico a apresentar o conceito de mercado livre. A princípio, a mão invisível permitiria que o mercado se autorregulasse, fazendo com que a necessidade de ação do Estado fosse diminuída. No entanto, vale lembrar que o mercado não atua sobre todas as variáveis que o impactam. O exemplo mais extremo desse ponto são as guerras que são realizadas por Estados, e não pelo mercado. Além disso, a presença do Estado se mostra fundamental em algumas áreas da sociedade: no Brasil, por exemplo, muitos centros culturais, museus e orquestras só são mantidos graças a investimentos estatais, pois não fariam sentido do ponto de vista de geração de lucros, pagamento de renda e de salários. Existe um quarto elemento de valor social que traz sentido a esta equação.

Atualmente, há uma crise do Estado em curso. No Brasil, particularmente, o Estado não se mostra capaz de equipar a população de seus direitos básicos. No livro As origens da ordem política, Fukuyama aborda a origem do Estado, tendo como fator primordial a troca que a população faz de sua liberdade pela segurança que um Estado forneceria. No caso brasileiro, está cada vez mais evidente a dificuldade de o Estado garantir a segurança de sua população, o que coloca sua credibilidade em xeque e dá vazão a discursos extremistas de que cada um deve ser responsável por sua própria segurança.

É importante ressaltar que, embora seja um clássico, A riqueza das nações, deve ser lido a luz do contexto socioeconômico do século XVIII, tendo suas particularidades levadas em conta. A obra se tornou clássica não exatamente pelo que é, mas sim pelo que nos faz pensar a respeito dos desafios atuais.

Lei da oferta e da procura
Avançando na teoria da precificação, Smith afirma que, além da renda, trabalho e lucro, há outros fatores que determinam o preço de uma mercadoria. É aqui que surge outro importante conceito: a lei da oferta e da procura. Para Smith, o preço natural (teórico) de uma mercadoria seria calculado baseado nos três fatores anteriormente citados. Entretanto, Smith observa que os preços são influenciados pela relação entre a disponibilidade de mercadorias e a procura por elas, elaborando o conceito de preço de mercado (real).

A lei da oferta e da procura persiste até nossos dias e é facilmente verificável para produtos e serviços. Vale ressaltar que nem toda mercadoria produzida irá automaticamente para o mercado, o que dá ao dono dos meios de produção o poder de regular a lei da oferta e da demanda de acordo com a quantidade de mercadoria que esteja disposto a oferecer ao mercado. Foi exatamente isso que aconteceu na crise do café dos anos 30 no Brasil: ao se deparar com toneladas de café que entrariam no mercado com um preço muito baixo, o governo decidiu queimar grande parte para influenciar o mercado e aumentar o preço do café.

No entanto, há ainda outro fator que influencia o preço de uma mercadoria e que não foi abordado por Smith: o fetichismo da mercadoria, tema muito explorado na obra de Marx. Se considerarmos os artigos de luxo, por exemplo, além do trabalho, renda, lucro, a oferta e a procura que determinam o preço, entra na conta a capacidade de o produto despertar desejo em potenciais consumidores. Um sapato, por exemplo, pode ser sinônimo de poder, requinte e status; assim, o que se vende não é um mero sapato, mas, também, todos os sentimentos que ele é capaz de despertar. A literatura atual da gestão empresarial também introduz o conceito de “agregação de valor”, mapeando fatores referentes à utilidade e também a questões no campo psicossocial que afetam as decisões quanto aos valores pagos por um produto ou serviço.

Capitalismo de compadrio
Por fim, é interessante constatar que o Brasil vive um capitalismo de compadrio, muito diferente do sistema econômico descrito por Adam Smith. Nossa economia opera com um importante componente de relações excessivamente próximas entre o Estado e um punhado de privilegiados com benesses diversas, como: acesso mais fácil e mais barato a recursos, benefícios e subsídios ou isenções, que não fazem sentido do ponto de vista econômico e de fortalecimento do mercado e do empreendedorismo para a geração de riqueza.

Além disso, é importante ressaltar as incoerências entre o discurso e a prática de vários setores da sociedade brasileira, que defendem a mão livre do mercado, mas que ao mesmo tempo estimulam práticas que constroem reservas de mercado ou ainda, a chamada consolidação de mercado, com a aquisição de grandes empresas e grupos, em nome da eficiência empresarial, mas que acabam gerando oligopólios e reduzindo a competição, indo no sentido contrário à ideia do livre mercado.

Avisos sobre o próximo encontro:
Data: 15 de setembro de 2018
Horário: 17h
Leitura e reflexão de trechos dos capítulos 8 e 9 do Livro 1 de “A riqueza das nações” . Edição Nova Fronteira: Coleção Clássicos de OuroS
Endereço: Rua Tinhorão, nº 60 – Higienópolis – São Paulo - SP

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